João Pessoa e suas histórias: as mortes de Ágaba e Sady, uma tragédia shakespeariana

O cenário da tragédia foi a Praça Comendador Felizardo Leite (atual Praça João Pessoa) onde o estudante Sady Castor tombou assassinado, tendo como pano de fundo sua paixão pela jovem normalista Ágaba, que terminou se matando dias depois, após escrever uma dolorosa e emocionante carta, vinda a público

Onde hoje opera o Tribunal de Justiça da Paraíba era onde as moças pessoenses, em sua esmagadora maioria (havia também, ali bem perto, a recém criada Academia de Comércio), tinham acesso ao estudo, por meio da Escola Normal, no ano de 1922.

JOÃO PESSOA E SUAS HISTÓRIAS

Por outro lado, no espaço onde nos dias atuais funciona parte do curso de Direito da Universidade Federal da Paraíba (prédio vizinho ao Palácio da Redenção), pontificava o prestigiado Lyceu Paraibano, onde estudavam os rapazes.

Entre os dois educandários, estava a velha Praça Comendador Felizardo Leite (atual Praça João Pessoa), então cercada pelo mesmo gradeado que hoje rodeia o Cemitério Senhor da Boa Sentença.

Em 22 de setembro de 1923, embaixo de uma árvore, de frente para a Escola Normal se encontrava o estudante Sady Castor Correia Lima, do Lyceu, então com 25 anos e natural de Soledade.  (A descrição do local onde ocorreu o assassinato é da edição de 23 de setembro de 1923, de A União, um dia depois do crime). 

Cioso em garantir a proibição de rapazes do Lyceu nas proximidades do educandário das moças, conforme determinado pela direção da Escola Normal, no que ficou conhecido como ‘a linha da decência’, o guarda civil Antônio Carlos de Menezes, de 31 anos, iniciou um debate com o estudante, que se recusava a deixar o local, para, na sequência, matá-lo à queima roupa.

Sady Castor foi atendido pelos médicos Newton Lacerda e Adhemar Londres, que não conseguiram reverter o quadro, vindo o estudante a falecer, tendo recebido a extrema-unção do Padre José Coutinho.

O que se seguiu à morte de Sady foi uma intensa revolta protagonizada pelos estudantes do Lyceu, liderados pelo Grêmio Cívico Literário 24 de março, principalmente contra o Monsenhor João Milanez, que dirigia a Escola Normal.

O jornal A União, inclusive, foi alvo da fúria dos estudantes, que chegaram a tomar exemplares da publicação, das mãos dos gazeteiros, destruindo-os publicamente, já que estavam inconformados com o teor da cobertura.

Os opositores do então presdiente do estado, Solon de Lucena, e do presidente da República, o paraibano Epitácio Pessoa, enxergaram o episódio como momento propício para fustigar o governo, tendo início um forte bombardeio contra o epitacismo, na Paraíba. 

A parte não contada até agora do inditoso acontecimento, que tirou a vida do estudante Sady Castor, e que motivara a presença da vítima em frente à Escola Normal, atendia pelo nome de Ágaba Gonçalves de Medeiros, de 17 anos, por quem Sady era apaixonado, e correspondido.

Para completar a tragédia, menos de 15 dias depois da morte de Sady, Ágaba dava fim a sua própria vida, pondo em xeque o tradicionalismo de então a determinar uma vigilância tão exagerada em torno dos espaços que separavam, à época, moças e rapazes da Escola Normal e do Lyceu Paraibano. Assim como era comum no restante da vida social da época.

CARTA DEIXADA POR ÁGABA DIRIGIDA À MÃE DE SADY

Parahyba, 6 de outubro de 1923.

Minha mãezinha,

Peço-vos desculpas de assim vos tratar, mas os laços que me prendiam ao vosso filhinho, permitem que assim vos trate. É lamentável dizer-vos o estado em que me acho desde o desaparecimento de meu inesquecido mui amado Sady. Peço-vos perdão de minha ousadia, mas, venho, por meio desta, dizer-vos que comungo convosco da mesma dor.

Ah! se não fosse ferir o vosso e o meu coração relataria o modo, os sentimentos daquele que tão cedo foi arrebatado do meio honrado em que vivia. Não sei por onde se acha a mala daquele que espero que Deus tenha em sua companhia; queria que vos interessásseis em mandar buscar. Resta-nos confiar na justiça da terra? Não, confiarei na Divina, pois que aquela falha e esta não falhará jamais.

Confiando no vosso coração, espero não se zangará quando esta receber. Peço-vos que abençoeis aquela que amanhã irá fazer companhia àquele que soube honrar e fazer-se honrar.

Abraçai as maninhas pela desventurada

Ágaba Medeiros

FONTES:

Acervo de A União

O CASO SADY E ÁGABA: O CRIME DA PRAÇA COMENDADOR FELIZARDO LEITE E A REVOLTA DOS ESTUDANTES DO GRÊMIO 24 DE MARÇO NA PARAHYBA DE 1923, DE FAVIANNI DA SILVA, DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ. 

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