PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Ágaba e Sady, uma trágica história de amor em João Pessoa

Praça Comendador Felizardo, atual Praça João Pessoa, vendo-se, ao fundo, a antiga Escola Normal, hoje Tribunal de Justiça da Paraíba

Sérgio Botelho – Algumas vezes já escrevi sobre a tragédia, resultado perverso de uma extravagância moralista —que não raramente é má conselheira—, e sempre me vejo tocado pela emoção, diante do quadro de contornos shakespearianos.

Na tarde do sábado, 22 de setembro de 1923, o estudante do Lyceu Parahybano Sady Castor, 27 anos, esperava a saída da normalista Ágaba Gonçalves de Medeiros, 17, em frente à Escola Normal.

Sady estudava no Lyceu Paraibano, com endereço no prédio que durante muito tempo sediou a Faculdade de Direito da UFPB. A Escola Normal, de Ágaba, funcionava no edifício que atualmente abriga o Tribunal de Justiça da Paraíba.

Estamos falando de um cenário centralizado pela Praça Comendador Felizardo, atual Praça João Pessoa, que, à época do acontecimento, era cercada por grades de ferro, as mesmas que hoje adornam o Cemitério Senhor da Boa Sentença.

O guarda civil n.º 33, Antônio Carlos de Menezes, destacado para policiar o entorno do colégio feminino, o abordou. A discussão terminou com um tiro fatal no abdômen de Sady.

Amigos e professores o socorreram, mas ele morreu horas depois. O velório reuniu multidões e, no sepultamento do infelicitado jovem, centenas de estudantes marcharam até o cemitério.

O episódio incendiou a cidade. O governo fechou temporariamente o Lyceu e a Escola Normal. O Grêmio Cívico-Literário 24 de Março, do Lyceu, reagiu com protestos e um habeas corpus para garantir o direito de circular e se reunir.

O caso entrou de vez na disputa política local da Primeira República, em uma quadra histórica paraibana em que Sólon Barbosa de Lucena governava o estado, não sem oposição.

A morte expôs o moralismo exacerbado da chamada linha da decência”, estabelecida pelo diretor da Escola Normal, monsenhor João Milanez, também diretor da Instrução Pública.

Com base nessa “linha”, ele pedira ao chefe de polícia Demócrito de Almeida um guarda fixo para impedir contatos entre “moças” e “rapazes” nos horários de entrada, intervalo e saída. Sady foi morto justamente sob essa vigilância.

Quinze dias depois do infausto acontecimento, Ágaba suicidou-se ingerindo veneno; cartas achadas logo após a morte consolidaram essa versão. O casal virou símbolo de uma cidade que confundiu disciplina com coerção do afeto.

You may also like


Discover more from Parahyba e Suas Histórias

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Comente