PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Convivência histórica perpetuada em poesia

Sérgio Botelho – Foi na capital pernambucana da segunda metade do Século XIX que autor e homenageado conviveram de forma mais próxima, uma cidade influenciada intelectualmente por um dos centros de estudos acadêmicos mais prestigiados do país: a Faculdade de Direito do Recife. Por lá passaram algumas das figuras mais ilustres da vida política e intelectual brasileira, no Século XIX.

Ali se discutia o Império, a escravidão, a liberdade, a República, a guerra e o destino do Brasil. Os estudantes escreviam jornais, faziam discursos, participavam de associações, frequentavam saraus e transformavam a palavra em instrumento de combate.

Nesse ambiente, dois jovens se aproximaram. Um deles era paraibano, ligado ao jornalismo, ao direito, à causa abolicionista e ao ideal republicano. O outro vinha da Bahia, trazia a força de uma voz poética arrebatadora e logo seria reconhecido como um dos maiores cantores da liberdade no Brasil. Encontraram-se no mesmo clima de fervor intelectual, partilharam amizades, causas e inquietações. A história os uniu na juventude, mas a poesia tratou de perpetuar o encontro.

O paraibano era Maciel Pinheiro, nascido na antiga Cidade da Parahyba, atual João Pessoa. Atuou na imprensa, defendeu ideias liberais, abolicionistas e republicanas, e chegou a se alistar como voluntário na Guerra do Paraguai. Sua partida para o campo de batalha comoveu os companheiros de geração. Não era apenas um soldado que seguia viagem. Era um homem de letras, de jornal, de tribuna e de ideias.

O poeta era Castro Alves, o baiano que entraria para a memória nacional como o “poeta dos escravos”. Sobre a aventura de Maciel Pinheiro, escreveu a poesia “A Maciel Pinheiro”, publicada depois em Espumas Flutuantes. O poema transforma o paraibano em figura heroica e fraterna, chamando-o de “peregrino audaz”.

Um poema que deveria estar não apenas em um portal na rua Maciel Pinheiro, como em todas as portas de seu casario histórico.

Sérgio Botelho é jornalista e escritor

A Maciel Pinheiro

Dieu soit en aide au pieux pèlerin.
BOUCHARD
Partes, amigo, do teu antro de águias,
Onde gerava um pensamento enorme,
Tingindo as asas no levante rubro,
Quando nos vales inda a sombra dorme…
Na fronte vasta, como um céu de idéias,
Aonde os astros surgem mais e mais…
Quiseste a luz das boreais auroras…
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Verás a terra da infeliz Moema,
Bem como a Vênus se elevar das vagas;
Das serenatas ao luar dormida,
Que o mar murmura nas douradas plagas.
Terra de glórias, de canções e brios,
Esparta, Atenas, que não tem rivais…
Que, à voz da pátria, deixa a lira e ruge…
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E quando o barco atravessar os mares,
Quais pandas asas, desfraldando a vela,
Há de surgir-tesse gigante imenso,
Que sobre os morros campeando vela…
Símbolo de pedra, que o cinzel dos raios
Talhou nos montes, que se alteiam mais…
Atlas com a forma do gigante povo…
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Vai nas planícies dos infindos pampas
Erguer a tenda do soldado vate…
Livre… bem livre a Marselhesa aos ecos
Soltar bramindo no feroz combate
E após do fumo das batalhas tinto
Canta essa terra, canta os seus gerais,
Onde os gaúchos sobre as éguas voam…
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E nesse lago de poesia virgem,
Quando boiares nas sutis espumas,
Sacode estrofes, qual do rio a garça
Pérolas solta das brilhantes plumas.
Pálido moço — como o bardo errante —
Teu barco voa na amplidão fugaz.
A nova Grécia quer um Byron novo…
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E eu, cujo peito como ua harpa homérica
Ruge estridente do que é grande ao sopro,
Saúdo o artista, que ao talhar a glória,
Pega da espada, sem deixar o escopro.
Da caravana guarda a areia a pégada:
No chão da história o passo teu verás…
Deus, que o Mazeppa nos estepes guia…
Deus acompanhe o peregrino audaz.

You may also like


Discover more from Parahyba e Suas Histórias

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Comente