Sérgio Botelho – Neste domingo, 06, dia da semana excelente para se fazer fotografia da parte histórica da cidade, justamente quando a região se encontra bem menos movimentada, e a gente pode captar imagens com mais detalhes da paisagem, fiz a foto que inspira o texto de hoje.
O que se vê é o início da Rua da República (a partir do seu antigo setor industrial), com a Ponte do Baralho, o Rio Sanhauá e a Avenida Liberdade, já em Bayeux, ao fundo. No conjunto, estamos diante de um dos cenários mais característicos de João Pessoa, aquele que por décadas marcou a entrada na cidade.
A Ponte do Baralho ou Ponte de Bayeux ou Ponte do Sanhauá, até ser definitivamente aposentada, que supera os limites entre João Pessoa a atual cidade de Bayeux, se prestou, autenticamente, por quase dois séculos, como o momento simbólico da entrada na capital, notadamente com referência ao interior paraibano.
Chegar ao solo pessoense significava, em seu trajeto final, superar a Avenida Liberdade (oficialmente, Avenida Abdon Milanez), cruzar a ponte e subir a rua da República. Para os que vinham de ônibus, o destino imediato foi, sucessivamente, e durante bom tempo, a Praça Pedro Américo e a Estação Rodoviária da Primavera.
Para muitos dos que estavam chegando, cruzar o Sanhauá era, sentidamente, atravessar um portal simbólico. Para trás, ficaram a dura viagem e as lembranças da vida vivida desde o berço. À frente, o rebuliço de uma João Pessoa que se abria a novas possibilidades.
Dessa maneira, a composição da foto, com a Avenida Liberdade, a Ponte do Baralho, o Sanhauá e a Rua da República se reveste de grande significado, destacadamente para quem um dia cumpriu esse trajeto em busca de vida nova.
Tanto assim que, mesmo interditada aos carros, descer a pé a República, atravessar a ponte e pisar na Liberdade é reviver esse rito de passagem. Ainda mais com o Sanhauá correndo logo abaixo, com o seu cheiro salobro mexendo com os sentidos, e na mente, a evocação de um tempo de mudanças pessoais e familiares, não raras vezes, extremamente radicais, para o bem e para o mal.
Cresci ouvindo – e ainda hoje ouço – essas histórias. Amigos, vizinhos e colegas que vieram do interior sempre falavam – e falam – do dia em que cruzaram a Ponte do Baralho, entraram na Rua da República e se emocionaram com a mudança. Estudar, arrumar emprego, cuidar da saúde, dar futuro aos filhos eram os principais objetivos.
Cada relato testemunha o que aquela velha travessia representou, para tanta gente. Na verdade, uma espécie de porta mágica que, na cabeça de quem estava chegando, expressava a chance de seus melhores sonhos virarem realidade.
Discover more from Parahyba e Suas Histórias
Subscribe to get the latest posts sent to your email.

