“Ah, os doidos. Mil vivas aos doidos”, por Luiz Augusto Paiva da Mata

Sérgio Botelho – A crônica “Ah, os doidos. Mil vivas aos doidos!”, de Luiz Augusto Paiva da Mata, é um brinde à sensibilidade que reconhece nos chamados “doidos” — esses personagens à margem da norma — uma riqueza humana inestimável.

A citada conversa comigo, Paiva transforma numa jornada existencial pelas ruas da memória, onde as figuras excêntricas ganham lugar de destaque, não por seus desvios, mas por sua autenticidade.

Em meio a lembranças de cidades como João Pessoa, Franca e São José dos Campos, somos convidados a refletir sobre o papel dessas figuras na construção do imaginário coletivo. São homens e mulheres que, com suas manias, frases singulares e gestos inesperados, ajudaram a colorir o cotidiano e a dar identidade a lugares que, sem eles, seriam apenas pontos no mapa.

No fundo, o texto nos faz pensar sobre quem realmente são os loucos: os que se perdem de si ou os que, mesmo em desalinho com o mundo, seguem fiéis a um modo próprio de existir?

Ao final da leitura, resta um sentimento de gratidão por esses “malucos” que, em silêncio ou barulho, nos ensinaram — e ainda ensinam — a olhar o mundo com outros olhos.

Na sequência, o texto completo:

Ah, os doidos. Mil vivas aos doidos!

Luiz Augusto Paiva da Mata

Dias atrás encontrei-me com Sérgio Botelho, cronista de boa cepa que vem resgatando o que dessa nossa memória pessoense merece ser resgatado. Um casarão ali que está em ruínas, aquela rua que foi de um jeito e hoje é de outro, o monumento que está ligado à partes importantes de nossa história e por aí vai esse escrevinhador eternizando através de seu cálamo inspirado os tesouros que muitas vezes escapam aos nossos olhos.

Mas o mais importante é que Sérgio vem resgatando gente. Criaturas que hoje emprestam seus nomes às vias públicas, a hospitais, escolas. Mas quem são eles, quem são elas? É o que Sérgio vem mostrando através de suas crônicas e outros textos que ganham a forma de livros e vão enriquecendo as prateleiras das livrarias; as que ainda sobrevivem.

Dito isto, agora vamos à conversa que tive com esse ilustre memorialista. Por falar em gente, a prosa, como era de se esperar, chegou aos doidos. O mote provocou acalorada discussão entre mim e o ilustre escritor. Tivemos que recorrer aos tortuosos labirintos da metafísica para chegarmos, depois de muitas discordâncias a um preceito que deve ganhar a magnitude de um axioma e entrar para os anais do pensamento filosófico. É o seguinte: Cidade que não tem pelo menos um doido de destaque não merece respeito.

Assim pensando, a nossa urbe, se projeta como uma referência não só aqui nessa Pindorama onde vivemos, vulgo Brasil, mas é estrela de maior grandeza

em qualquer um dos quatro continentes. Qual o canto desse mundão de Deus que teve um Caixa D’água, uma Vassoura, um Carbureto, um orador como Mocidade, o Velho do Saco? Isso sem falar dos reservas que era uma tropa de notória qualidade.

Essa constatação que eleva nossa capital das acácias à condição de destaque no planeta, fez-me viajar no tempo e buscar uns doidos, ou doidas, que ainda habitam minha memória.

Lá nos distantes 1978 e 79, todas as segundas-feiras eu lecionava na cidade de Franca, interior paulista. O curso pré-vestibular onde exerci o ofício do qual já me aposentei, ficava na Rua do Comércio, via que desembocava na Praça da Matriz. Essa praça, naqueles tempos, abrigava o comércio informal de pedras preciosas e quem circulava por ali era o louco mais emblemático da cidade: Pelotão, que atirava pedras em quem o chamasse pelo apodo. Franca merece respeito por reconhecimento ao seu doido e é devido a ele tratada respeitosamente pelos francanos como “A Franca do Imperador”.

Já na minha São José dos Campos , tinhamos Maria Regimento que acompanhava a ordem unida da soldadesca do Tiro de Guerra e dava comando aos recrutas durante as marchas: “Barriga pra dentro, peito pra fora, polegar também é dedo”. Tínhamos também Elias, Maé, Tonho Toicinho e mais uns e outros. Mas quem trouxe respeitabilidade à capital da aviação, não foi o ITA, nem a EMBRAER, nem mesmo os loucos que mencionei, mas o mais encantador dos doidos que só mesmo Deus em sua infinita bondade nos presentearia: Zé Pupu!

Vou contar quem foi Zé Pupu. Na minha infância, digo coisa dos 7 aos 11 ou 12 anos, frequentei as matinês do Cine Santana. A garotada cativa daquelas tardes de domingo podia ver John Wayne, Roy Rogers, Book Jones, Randolph Scott, Hopallong Cassidy…

Mas o cowboy de nossa preferência não era projetado na telona, não era virtual, era real, era Zé Pupu que dividia com a garotada as poltronas daquele cinema. Deveria ter seus 40 anos, não mais que isso, magro, estatura mediana, olhar de bandido mexicano, vinha vestido como um cowboy verdadeiro: chapéu, colete, alças apertadas, botas de cano longo e cinturão com um revólver de espoletas de cada lado e espaço no cinto para distribuir munição.

Era o mais animado entre nós. Quando um bandido aparecia na tela ele descarregava aquela munição de festim na cara do facínora. E e era só aplausos da garotada. Uma apoteose!

Contei isso e perguntei ao Sérgio: Um menino hoje tem noç)ão desse encantamento, dessa magia? A resposta foi essa: Claro que não.

É por isso que digo até com certo orgulho que, de todos os malucos que vi pelo mundo, Zé Pupu foi o meu favorito.

(Publicado em A União e no Ambiente Carlos Romero)

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