🌆 Crônica da Tarde (A blasfêmia da curiosidade)

Sérgio Botelho – Neste último final de semana, o poeta e escritor Hildeberto Barbosa Filho publicou uma sequência de três textos na sua coluna semanal em A União, depois republicadas, nesta segunda-feira, 16, no espaço que ele mesmo criou no Facebook, e ao qual deu o nome de Letra Lúdica.

Nesta Crônica da Tarde desta terça-feira, 17, me detenho a comentar o primeiro dos textos, onde o que mais chama a atenção é a inestimável defesa da curiosidade, do não convencional. Hildeberto revela um desejo sincero de pensar fora dos trilhos formais da academia, movido por uma inquietação que o leva a temas inusitados. Ele defende fugir do que já foi estudado, propondo novas rotas: “Gostaria de escrever um pequeno tratado acerca da lágrima. Sua história, sua pedagogia, seus efeitos no interior das civilizações.”

Há também uma atenção especial à linguagem, à forma como os escritores moldam o mundo com palavras. Ele menciona a vontade de se dedicar “ao estudo dos adjetivos em certos autores. Clarice Lispector, Roberto Bolaño e Philip Roth, por exemplo”, revelando interesse pela minúcia literária, pelo detalhe revelador.

Esse pensamento errante não é superficial: é profundo justamente por recusar os caminhos prontos. O autor fala em “uma epistemologia do episódico”, “uma ciência dos acasos” e até “os fundamentos de uma ética vegetal”, como se dissesse: tudo pode ser objeto de pensamento, desde que nos permita buscar o mundo com outros olhos.

A recusa ao conformismo é clara: “Sempre tive a preocupação de ampliar a escala cognitiva de nossos objetos formais de estudo e me atirar, sem temer qualquer risco, nem mesmo o do ridículo, nos abismos indevassáveis dos conhecimentos heterodoxos.” Há, aqui, um convite à ousadia, ao pensamento criativo, ao saber que nasce da “volúpia da incerteza” e da “blasfêmia da curiosidade”.

No fim das contas, o texto nos lembra que o conhecimento mais vivo e transformador talvez venha justamente dos lugares que a academia costuma evitar. Afinal, como ele bem afirma, “se não ousamos… nunca sairemos da mesmice.”

Por hoje é só, amanhã tem mais.


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