Solidariedade cresce, na desdita, e sugere um tempo de mudar

SolidariedadeSérgio Botêlho

Se há uma coisa da qual não se pode queixar nessa pandemia do coronavírus é do crescimento dos gestos de solidariedade. Com efeito, a humanidade vai aprendendo, aos poucos, que a única forma de convivência humana capaz de vencer as adversidades, que são comuns, é a cooperação.

Nesse sentido, o jornal O Globo desta quarta-feira, 01, veicula inspiradora matéria a respeito da camaradagem entre vizinhos que antes mal se cumprimentavam. Idosos recebem compras em casa, assim como pessoas isoladas pela doença, impossibilitadas de deixar suas casas. São os vizinhos que agem, assim.

Realmente, em meio ao terror causado pelo coronavírus parece instalar-se um tempo de delicadezas. No que pese a persistência de comportamentos mesquinhos e indelicados, há expressivos gestos de amor tomando conta dos seres humanos.

Será que afinal de contas estamos nos conscientizando de que não há salvação para a humanidade senão pela civilidade e pela parceria? Tomara que sim, pois não há outro caminho a ser trilhado, é o que nos revela, tragicamente, a atual pandemia.

Aldeia global

Há tempos que nos acostumamos com o modo aldeia global que se instalou na comunicação entre os diversos povos da Terra. Diariamente, via internet e meios de comunicação em geral, nos acostumamos a ver e ouvir notícias dos locais mais distantes do nosso planeta como se fora do outro lado da rua.

Contudo, apesar das costumeiras informações, assim, de tão distante, continuávamos, habitualmente, a sentir essas notícias como de coisas distantes, mesmo. Penúrias do outro lado da Terra, e, mesmo, de vizinhos, pareciam não nos ameaçar.

A crise provocada pelo Covid-19, um mísero ser microscópico, no entanto, fez-nos ver os perigos distantes dentro de nossas próprias cidades. Pior, dentro de nossas próprias casas, e na dos vizinhos e parentes. Tais perigos, como o do Covid-19, podem até nascer distantes, em comunidades carentes ou não, mas, chegarão até nós, com a mesma virulência.

Dessa maneira, o drama tem feito com que as pessoas se observem como mais iguais. Pobres e ricos, pretos, brancos e amarelos, feios e belos, doentes e sadios, especiais e perfeitos, todos são absolutamente iguais diante do coronavírus.

Insuficiência dos sistemas de saúde

A insuficiência generalizada dos sistemas de saúde, atingindo países pobres, ricos e remediados, se encarregou de mostrar que todos estão igualados na mesma tragédia. Abastados e insuficientes, do ponto de vista financeiro, estão morrendo e sendo sepultados sem qualquer pompa.

O que está restando à humanidade, então, é tão somente a solidariedade, o amor ao próximo, o sentimento de que o mundo não pode mais ser o mesmo depois de toda essa calamidade, a ceifar a vida de milhares de pessoas, em todos os continentes.

Infelizmente, não é a única ameaça que ronda a Terra, agora e sempre. Mesmo no campo das doenças, é muito provável que tenhamos de enfrentar, mais na frente, outros ataques viróticos dessa mesma grandeza ou muito pior.

E ainda têm as guerras e os extremismos que insistem em por a humanidade em risco permanente. Uma realidade que não é tão nova, assim, mas que tem se revestido de perigo cada vez maior à sobrevivência humana, diante das novas capacidades armamentistas internacionais.

Solidariedade, enfim?

O que importa, agora, é que, mesmo sofrendo os horrores de um ataque virótico tão extenso, quanto significativamente mortal, possa a humanidade estar experimentando novas sensações, desta vez, alicerçadas em mais apego às dores dos outros, dos mais pertos aos mais distantes. Quer dizer: tempos de solidariedade.

Os sinais de delicadeza e solidariedade parecem, ainda, atingir a cabeça dos que determinam a política e a economia mundiais. O sentimento, aparentemente, é de que não há ameaça isolada, no campo da vida humana. E, portanto, de nada valem as acumulações de riquezas feitas de forma isolada.

Caso seja dessa maneira, é possível que, vencida a jornada mais imediata pela superação dos terríveis efeitos do coronavírus, haja, enfim, se instalado, entre os homens, a certeza de que não há chance de sobrevivência da vida humana exceto pela superação das imensas desigualdades que marcam a vida na Terra, atualmente.

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