Economia X vidas: oposição 100% falsa, segundo especialistas

Economia X vidas. Juntou a impaciência popular com as pregações do presidente Bolsonaro, e pronto, a quarentena está perdendo fôlego. Vírus ganha força.

Juntou a impaciência popular com as pregações do presidente Bolsonaro, sustentando a falsa oposição economia X vidas, e a quarentena está perdendo fôlego. Pior para a vida e, também, para a economia.

Acompanhando o retorno das pessoas às ruas, a tendência, segundo especialistas, é crescer o contágio e aumentar os casos de infecção por Covid-19. Dessa forma, segundo os infectologistas, as perspectivas, sem isolamento social, são muito ruins para o Brasil, frente a pandemia.

Nesse momento, os fatos vão se sobrepondo tragicamente às crenças e ideologias. Especialistas temem que o afrouxamento da quarentena antecipe o colapso dos hospitais.

Este, o grande temor, desde o início da pandemia. Em consequência, São Paulo tende a parar, completamente. O prefeito Bruno Covas já admite fechar as ruas paulistanas.

Nos estados, governadores fazem de tudo para manter o isolamento social, conforme recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Afinal de contas, o principal organismo, em função de ser o mais acreditado, a comandar a reação internacional ao coronavírus.

A imprensa, por sua vez, desempenha papel fundamental nesse processo, alertando a população e veiculando as opiniões dos especialistas. Mas, por outro lado, têm as pregações calcadas em crendices e ideologias, e na falsa oposição economia X vidas, a mexer com a impaciência popular.

Quebra das resistências

Enquanto isso, países até aqui resistentes ao isolamento social vão mudando de posição, diante do aumento de casos. Um deles, a Suécia, que não adotou a quarentena, viu as mortes por coronavírus tomarem conta da situação.  Por isso, está resolvendo, agora, tomar medidas mais drásticas, e decidiu por uma série de proibições nas ruas.

Mais atrás, o presidente Donald Trump, dos EUA, resolveu que a Covid-19 não valia nada. O resultado foi uma explosão de casos infecciosos por conta do vírus, transformando a América do Norte no novo foco da pandemia.

Nova York, com 160.000 casos, virou o retrato do inferno. Os mortos estão sendo sepultados em valas comuns. Dessa forma, teve de voltar atrás em sua teoria de economia X vidas, e, uma após outra, foi adotando medidas mais restritivas para a circulação de pessoas.

O mesmo pode ser observado no comportamento do governo inglês ao longo da crise sanitária atualmente vivida pelo mundo. Boris Johnson, o primeiro-ministro do Reino Unido, teve, como primeira reação, o desprezo.

No entanto, diante da virulência da pandemia, voltou atrás, adotou medidas restritivas, e, agora, está no hospital enfrentando o vírus, em si próprio.

Enfim, em todos esses casos o que se vê é a implosão da falsa dicotomia economia X vidas, em termos do que se observa, hoje, no sentido de como agir frente à pandemia.

Custo

Dessa forma, temos lido diariamente os mais candentes exemplos de como custa a um povo não adotar as medidas recomendadas pela ciência, no enfrentamento ao coronavírus. A Itália, a França e a Espanha são três exemplos da perversidade do vírus durante sua propagação por esses países.

Mas, nesta Páscoa, o controle está sendo redobrado. Não apenas nesses países, mas, em toda a Europa. Na Espanha, a polícia está nas ruas para evitar o descolamento de famílias durante o feriado cristão.

Milão, berço da moda internacional e lugar de desfrute de uma classe média alta para cima, está na fila do pão, segundo metáfora do escritor milanês Antonio Scurati.

Depois de renegar o coronavírus a uma condição insignificante, enquanto perigo real, amarga agora mais de três mil mortes. Somente na região. Não há uma só família que não esteja sofrendo. Apagou-se, diante da tragédia, a falsa oposição economia X vidas.

Economia X vidas

Grande parte dessas reações (das que permanecem às que voltaram atrás) se move em favor do entendimento de que há um grande perigo para a economia com a adoção de um isolamento social mais forte. Contudo, para maior parte dos economistas, a posição que mais favoreceria a economia seria, na verdade, a adoção do isolamento forte e urgente. Portanto, nada de economia X vidas.

O economista Carlos Góes, pesquisador chefe do Instituto Mercado Popular, enfatiza que o único meio de frear o ritmo da escalada da Covid-19, é também o melhor caminho para a recuperação econômica, uma vez controlada a pandemia. A afirmação foi feita com todas as entonações necessárias em entrevista a Renata Lo Prete, da Globo News.

Mais ciência contra o argumento economia X vidas

Recente estudo patrocinado pela Board of Governors of the Federal Reserve System, pelo Federal Reserve Bank of New York e pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) – Sloan School of Management, confirmam que é falsa oposição economia X vidas.

Segundo os cientistas responsáveis pela pesquisa, na gripe espanhola de 1918, os países que tomaram as medidas mais drásticas puderam retomar suas economias também mais rapidamente. Mais uma vez é a ciência contra os achismos, as crendices e as conclusões ideológicas.

Nesse mesmo sentido, conforme matéria de Eduardo Porter e Jim Tankersley, no The New York Times, “já se formou amplo consenso entre economistas e especialistas em saúde pública, segundo o qual levantar as restrições imporia enormes custos em termos de vidas adicionais perdidas para o vírus – e representaria um reduzido benefício duradouro para a economia”.

Segundo outra economista, a Monica de Bolle, que escreve regularmente no jornal Estado de São Paulo, e vive nos EUA, não é verdade que uma recessão mata mais do que uma pandemia, como dizem os economistas e líderes que se põem contrários ao isolamento social.

Para Mônica de Bolle, “os estudos econômicos não sustentam essa tese, de forma alguma, pelo contrário, em tempos de forte expansão econômica, as taxas de mortalidade tendem a subir”, conforme destaca.

Achamento da curva

Os médicos e cientistas não têm a ilusão, neste momento, de derrotar o coronavírus. Porém, enquanto não se consegue acabar com o mal, o objetivo é achatar a curva de expansão da Covid-19.

Cumpre, é bom sempre repetir, evitar o colapso do sistema do sistema hospitalar. Ao mesmo tempo, cumpre ao poder público amparar os mais pobres para que o desastre econômico não seja ainda maior. “Dane-se o estado mínimo”, proclama de Bolle.

É por isso que a esmagadora maioria dos médicos, cientistas e economistas estão defendendo o isolamento horizontal, ao tempo em que repudiam a infeliz contradição economia X vidas.

Não apenas médicos e cientistas, mas também, e de forma amplamente majoritária, líderes das mais e das menos importantes nações do mundo inteiro. Pois, caso isso não seja feito, agora, os prejuízos serão incontornáveis para a saúde e, da mesma forma, para a economia mundial.

Enfim, resta aquela esperança que por tantos vem sendo cantada em prosa e verso: a de que o mundo pós-coronavírus seja realmente um novo mundo, baseado na solidariedade e na paz.

Caso contrário, pensam essas muitas pessoas, a humanidade não sobreviverá por muito tempo. Longe bem longe da falsa contradição economia X vidas.

(Sérgio Botêlho)

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