
Sérgio Botelho – Hoje conto uma história sobre a qual tomei conhecimento, inicialmente, pelas páginas do velho A União, porém, mais completamente, pela coleção do jornal A Noite, do Rio de Janeiro.
Começo pelo A União do dia 28 de junho de 1930, que transcrevo no português da época: “Vinda de Alagôa Grande, onde reside, encontra-se nesta capital, em trânsito para o Rio de Janeiro, a senhorita Othilia Falconi, proclamada pela A Noite, “miss” Parahyba. A formosa conterranea viajará a bordo do “Bahia”, em companhia de pessoas da sua família”.
Jornal notívago, fundado por Irineu Marinho, A Noite comandava os concursos de Miss Brasil – mas, também naquele ano, o Miss Universo, que foi realizado no Rio, cidade que pouco a pouco passava a conviver com misses de todo o mundo. Othilia embarcou para o Rio no dia 3 de julho de 1930.
O que me chamou a atenção e me conduziu a fuçar o assunto foi uma nota, literalmente, uma nota, na edição de 22 de julho, de A União, com o seguinte teor: “A senhorita Othilia Falconi, ‘miss’ Parahyba, comungou hontem às ultimas horas. O seu estado era desesperador. Hontem foi muito visitada, inclusive pelo sr. Epitacio Pessôa Cavalcanti, filho do presidente João Pessôa e em nome deste, por uma comissão de estudantes parahybamos, e pela senhorita Olga Bergamini, “miss” Brasil de 1929”.
Na verdade, o sofrimento da paraibana começou a ser noticiado, no Rio, na segunda-feira 14 de julho de 1930, quando, em sua primeira página, o jornal A Noite informava, no português de então: “No momento de vesperas da semifinal do Concurso Internacional de Belleza, a attenção e o jubilo publico volvidos para a proclamação da mais bella brasileira, a realizar-se dentro de poucas horas, temos a deplorar a ausencia, no torneio, da senhorita Othilia Falconi, ‘Miss Parahyba’. Tendo enfermado inesperadamente, a bella representante parahybana, assistida pela A NOITE em seu soffrimento, foi internada na Casa de Saude São Sebastião onde os desvelos dos clinicos verificaram tratar-se de um caso, infelizmente confirmado, de typho”.
Assim tinha início um período de intensa agonia para a representante da Paraíba, no concurso nacional de Miss Brasil, com o jornal carioca acompanhando diariamente o seu estado de saúde, com direito a equipe de plantão no hospital. Importante anotar a mobilização da sociedade carioca, inclusive das misses de outros estados, que se revezaram em visitas à nossa representante.
Não foi fácil. Em 19 de julho, A Noite informava em primeira página que a Miss Parahyba havia recebido a extrema-unção, último sacramento católico ministrado a quem está à beira da morte. “Esta a notícia que nos amargura ainda mais as horas sombrias que vão se escoando e que transmitimos, pesarosos, à população”.
Ainda assim, Othilia Falconi resistia, não esmorecendo o acompanhamento diário de A Noite nem o interesse da sociedade carioca. Pouco a pouco, as notícias da gravidade do estado de saúde da paraibana foram sendo substituídas por notícias mais animadoras, enquanto misses de vários países passaram a visitá-la, no hospital.
A partir da segunda-feira, 28 de julho, o jornal carioca noticiando o estado de saúde da paraibana, porém, agora, disputando, na capa, com as notícias sobre o assassinato do então presidente da Paraíba, João Pessoa. Na data, A Noite, enchendo os leitores de esperança, informava que acentuavam-se as melhores da Miss Parahyba.
Então, em 2 de agosto de 1930 o jornal expôs, entre suas manchetes de primeira página que a “Senhoria Othilia Falconi, Miss Parahyba, está fora de perigo”. E em 6 de agosto, a principal manchete de A Noite proclamava “A ressurreição de Miss Parahyba”, com a submanchete: “Exsurge a saúde e floresce a graça da senhorita Ottília Falconi”.
Em 1 de setembro de 1930, Ottilia Falconi deixa o hospital São Sebastião e passa a ser alvo de recepções festivas em vários locais da cidade do Rio de Janeiro, sendo as mais destacadas as do Teatro Cassino, da própria redação do jornal, com todo o corpo editorial e administrativo presente, e da Escola de Enfermagem Ana Nery que, em nota, chegou a comparar a paraibana com o corpo de uma mulher perfeita. Certamente, as enfermeiras, que a acompanharam todo o tempo no hospital, sabiam do que estavam falando.
Em meio a todas as manifestações de afeto carioca, em 6 de setembro A Noite veiculou em sua primeira página uma nota destoante: “Não se realizará a missa em acção de graças na Cruz dos Militares. Às pessoas que não hajam tomado conhecimento da nota feita publicar por monsenhor Rosalvo Costa Rêgo, vigário-geral, e na qual, se prohíbe a celebração de missas em acção de graças pelo restabelecimento de “Miss Parahyba”, prevenimos que, em consequência d’aquella estranha prohibição, não mais será rezado, amanhã, na Cruz dos Militares, o officio religioso em que se renderia graças ao Altissimo pela salvação da senhorita Ottília Falconi.”
Numa segunda-feira, 15 de setembro de 1930, após inúmeras homenagens na então capital federal, a miss Parahyba retorna sã e salva ao seu estado, não sem antes ser homenageada em Salvador, na Bahia.
Ao voltar à terra natal, Othilia Falconi encontrou o estado em conflagração política absoluta, pela morte de João Pessoa, sem olhos nem ouvidos para acompanhar-lhe os passos, da forma como havia ocorrido no Rio de Janeiro.
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