Enfrentamento errático contra a crise sanitária, no Brasil

Nesta manhã, o Brasil ultrapassou a marca das 55 mil mortes por Covid-19, em meio a um enfrentamento errático. Agora, o país tem 55.102 óbitos devido à pandemia, com 1.234.850 casos confirmados da doença. No entanto, os cientistas estimam que os números estão bem subavaliados.
Quando a gente fala em cientistas sabe que está se reportando a pessoas que dedicam suas vidas à ciência. Portanto, são eles, no caso da atual crise, médicos e infectologistas, que têm sapiência suficiente para saber do que estão falando. Porque estudam o assunto.
Lamentavelmente, ao mesmo tempo em que os brasileiros enfrentam a pandemia, encaram, ainda por cima, posicionamentos incompreensíveis. Pois há gente, a partir do andar de cima, que faz de tudo para que os cientistas sejam desacreditados.
Dessa forma é que, desde o início da pandemia, o governo brasileiro insiste em orientar suas ações. Ainda agora, com a ascensão dos casos confirmados e das mortes no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro volta a público para maldizer que a crise está sendo superestimada.
Foi com essa pregação, e com iniciativas abertas, que conseguiu desmobilizar as ações em favor da quarentena promovidas por governadores e prefeitos. A rigor, por conseguinte, nunca houve quarentena séria no país. O resultado disso a gente observa na escalada da Covid-19.
Eis aí uma questão que não tem viés nem à direita nem à esquerda. Não são de esquerda os ex-ministros Henrique Mandetta e Nelson Teich. Pelo que se sabe, estão bem mais para a direita do que para a esquerda. Contudo, saíram por defender a quarentena.

Críticas dos EUA

Por conta do enfrentamento errático do Brasil é que, do mesmo lado ideológico que o presidente Bolsonaro, o presidente Donald Trump tem insistido em críticas à condução da crise, no Brasil. De tal forma, que proibiu a entrada de brasileiros em território norte-americano. A Europa capitalista anda prometendo o mesmo.
Falar em Europa, após piques da pandemia e medidas fortes de isolamento, vários países afrouxaram a orientação, e, agora, estão enfrentando nova onda do coronavírus. Pelo jeito, terão que promover novo isolamento. Senão, os respectivos sistemas de saúde colapsam.
Aliás, esse é o problema maior. Com o aumento dos casos e a busca por hospitais, não há sistema de saúde que suporte. E, então, o resultado é a multiplicação de mortes por absoluta falta de vaga nas UTIs, especialmente.
O perigo na falta de medidas de contenção contra o vírus na dosagem certa é a chamada quarentena ioiô. Ou seja: a contaminação diminui, afrouxa-se a quarentena; o vírus avança, aumenta-se a quarentena. Os prejuízos para a economia, então, são incomensuráveis.
Infelizmente, desde o início da pandemia no Brasil que o governo estabeleceu uma dicotomia infeliz entre economia e saúde. Nada mais fantasioso do que tal dicotomia frente à enorme quantidade de mortes e as incertezas econômicas por falta de medidas de isolamento convenientemente aplicadas.
Veja-se o exemplo dos Estados Unidos. Também lá, o presidente Trump, embora crítico à nossa situação, vem promovendo o descrédito da pandemia desde o seu início. Neste momento, com recorde de casos, aquele país começa a frear reabertura.

Recuos

Tanto assim que, nesta quinta-feira, 25, o assessor da Casa Branca Larry Kudlow admitiu que pode haver novos confinamentos. Se o isolamento e a acreditação da ciência houvessem sido conduzidas corretamente, esse ioiô não estaria ocorrendo. Pior para a economia norte-americana.
Nesta semana, a Espanha anunciou que vai prorrogar por mais três meses, até setembro, o esquema de licença remunerada pago pelo Estado, que beneficia cerca de 3,5 milhões de trabalhadores.
Por lá, o governo assegura até 70% do salário de funcionários de empresas privadas que aderiram ao programa. Sindicatos e empresas disseram que a prorrogação era essencial. Então, o jeito é pagar, para salvar a economia no rumo do pós-crise.
Porém, no Brasil esses pagamentos são feitos debaixo de enorme sofrimento para quem recebe. E, mais ainda, para quem não consegue receber. São pagamentos feitos debaixo de fortes lamentações do governo e ameaças constantes de suspensão. Ou, na menos ruim das hipóteses, de redução de valores. Pior para a economia brasileira, certamente.
Diante de um enfrentamento errático, assim, não é possível prever quando, no Brasil, vamos nos encontrar com o fim da crise, tanto do ponto de vista da saúde quanto da economia. Do lado do governo, no que tange a medida de endurecimento contra o avanço da pandemia, não se enxerga mudança de posição. Do lado dos especialistas, reina a perplexidade. Da parte do povo, a mais absoluta escuridão. Para todos, um futuro completamente incerto do que se convencionou chamar de novo normal.
(Sérgio Botêlho)

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