Um convite apaixonado à descoberta literária, por Hildeberto Barbosa FilhoUm convite apaixonado à descoberta literária, por Hildeberto Barbosa Filho

Sérgio Botelho – O artigo “De escritores para escritores”, do acadêmico Hildeberto Barbosa Filho, publicado originalmente no jornal A União, desse domingo, 20, e reproduzido, nesta segunda-feira, 21, na coluna Letra Lúdica, mantida pelo autor. no Facebook, é um convite apaixonado à descoberta literária.

Com um tom intimista e reflexivo, o autor nos leva a um passeio pelo universo dos livros, mostrando como a leitura de um escritor pode abrir portas para outros, criando uma rede de conexões que enriquecem nossa experiência com a literatura.

O ponto de partida é o romance “O coração é um caçador solitário”, da norte-americana Carson McCullers. Publicado aos 23 anos, o livro retrata personagens angustiados e marginalizados, típicos da tradição literária do Sul dos EUA, ao lado de nomes como Faulkner e Tennessee Williams.

A sugestão de leitura veio de outro gigante: Henry Miller, escritor que Barbosa Filho admira há anos. Miller, conhecido por sua ousadia, é celebrado não só como ficcionista, mas como um leitor voraz.

O artigo de Hildeberto é um manifesto delicado sobre o prazer de se perder (e se encontrar) nos livros. Ele não só homenageia seus autores favoritos, mas nos lembra que a literatura é uma conversa sem fim — e cada leitor, um viajante em busca de novas vozes para se encantar.

Que tal começar sua próxima leitura seguindo as sugestões de um escritor que você admira? Quem sabe qual espiral literária você vai desbravar?

 

Letra Lúdica

Hildeberto Barbosa Filho

De escritores para escritores

Estou lendo o romance de Carson McCullers, O coração é um caçador solitário, publicado em 1940, quando a escritora norte-americana tinha 23 anos de idade. Leio numa edição da Abril Cultural, de 1984, numa tradução de Marcos Santarrita, coleção “Grandes Romancistas”.

Na linhagem dos autores do Sul dos Estados Unidos, como William Faulkner, Tennessee Williams e Truman Capote, por exemplo, McCullers flagra, em estilo duro e direto, a face trágica da vida, pondo em relevo personagens problemáticos, figuras especiais, seres agônicos e desamparados num mundo indiferente e sem saída.

Quem me sugeriu a leitura foi outro escritor norte-americano, Henry Miller, por quem nutro velha e reiterada admiração. Henry Miller integra também a tradição desta curiosa estirpe. Ele escreveu um livro que nunca deixo de ler e reler e cujo título já revela seu grande amor pelos livros. Falo de Os livros da minha vida, obra seminal e desafiadora para todos aqueles que cultivam a sagrada paixão pela experiência da leitura.

O que ele escreve, mesclando seu faro de ficcionista à sua ensaística intuição, me parece decisivo à compreensão de tópicos essenciais da obra de um Blaise Cendrars, Rider Haggard, Jean Giono, Walt Whitman, Herman Hesse, Lawrence e Krishnamurti. Acerca deste último dedica páginas incontornáveis que me levaram a mergulhar, fundo, nas lições e no pensamento do genial indiano.

Dos livros sobre livros, este, de Henry Miller, me toca em particular. Henry é um escritor de gênio, um leitor apaixonado e aguerrido. Por isto mesmo não posso ser indiferente a suas dicas de leitura. Seu ensaio a respeito de Arthur Rimbaud, A hora dos assassinos, me parece uma ousada e arguta exegese a partir das tensas inter-relações entre vida e obra.

Gosto, portanto, quando os escritores escrevem sobre seus pares, seus antecessores, seus contemporâneos, e falam de seus caprichos de leitura. Não raro, mais que os teóricos, mais que os críticos, mais que os professores, são capazes de iluminar, com sua sensibilidade e sua imaginação, aspectos seminais das obras e dos autores lidos.

Devo a Vladimir Nabokov uma das melhores leituras da A metamorfose, de Kafka. Também aprecio, embora discorde em muitos pontos de sua argumentação, seus desapontamentos em torno dos romances de Dostoiévski. E, por falar em Dostoiévski, foi por sugestão do autor de Crime e castigo que fui ler Gogol, Pushkin e Victor Hugo.

José Lins do Rego, por exemplo, me levou a Thomas Hardy; Autran Dourado, a Gustav Flaubert; Lúcio Cardoso, a Julien Green; Gerardo Mello Mourão, a Dante Alighieri; Pedro Nava, a Marcel Proust, e José Antônio Assunção, a Jorge Luis Borges.

É lendo um determinado autor, portanto, que descubro outros, passando a conviver numa rede de contatos literários que se estende em múltiplas direções. Para se ler bem, nunca devemos ler um autor sozinho. Todo autor deflagra uma espiral de outros autores.

Quero me referir, aqui, principalmente àqueles ficcionistas, ensaístas e poetas que, sendo senhores de suas respectivas obras de criação, voltam-se, contudo, livremente, isto é, sem amarras metodológicas, para o convívio crítico com a criação alheia.

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