Democratas em geral, en garde!

Democratas em geral, en garde!

Sérgio Botelho – Um fantasma ronda o mundo contemporâneo, mas não é o espectro do comunismo descrito por Marx em 1848. É a sombra da extrema-direita, que, em nome de um suposto “conservadorismo” ou “nacionalismo”, ataca tanto as conquistas históricas dos trabalhadores quanto os pilares do liberalismo político.

Portanto, neste Primeiro de Maio de 2025 é preciso lembrar que a resistência exige uma frente ampla: sindicatos, movimentos sociais, cientistas, intelectuais e até liberais democratas precisam unir-se em defesa do Estado de Direito, da ciência e da justiça social.

Figuras como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil, personificam essa contradição perversa: enquanto adotam retóricas econômicas que beneficiam elites, destroem instituições democráticas, desprezam a ciência e minam direitos sociais, deixando um rastro de retrocessos que afeta a todos, de operários a intelectuais liberais.

O liberalismo clássico, em sua essência, sempre defendeu o Estado de Direito, a separação de poderes, a liberdade de imprensa e a cooperação internacional como bases para sociedades estáveis e prósperas.

No entanto, a extrema-direita contemporânea opera uma distorção perigosa desse legado. Trump, por exemplo, promoveu um protecionismo agressivo, com guerras comerciais que desestabilizaram cadeias globais de produção, ao mesmo tempo em que deslegitimou instituições multilaterais.

Sua retórica antiglobalização, porém, não buscou fortalecer os trabalhadores americanos, mas sim beneficiar conglomerados empresariais, como demonstram os cortes de impostos para corporações e o enfraquecimento de regulamentações ambientais e trabalhistas. A sua renovada posição pela saída dos EUA do Acordo de Paris, definida logo na largada de seu novo mandato, agora, em 2025, simboliza esse desprezo por pactos internacionais que exigem cooperação e responsabilidade coletiva — princípios caros ao liberalismo.

No Brasil, Bolsonaro seguiu um roteiro semelhante, porém com contornos ainda mais brutais. Além de desmantelar políticas ambientais — acelerando o desmatamento da Amazônia e colocando em risco o equilíbrio climático global —, seu governo atacou sistematicamente a ciência.

Durante a pandemia de COVID-19, o negacionismo virou política de Estado: tratamentos sem comprovação foram promovidos, vacinas foram descredibilizadas e especialistas foram perseguidos. Esse anticientificismo não é mera ignorância; é uma estratégia para deslegitimar o pensamento crítico, base do Iluminismo e, consequentemente, da própria democracia liberal.

Os trabalhadores, por sua vez, pagam um preço duplo. Sob a máscara de um “liberalismo econômico”, a extrema-direita promove reformas que precarizam direitos históricos. Nos EUA, Trump cortou impostos para os mais ricos e enfraqueceu sindicatos, ampliando a desigualdade.

Não se trata de uma agenda liberal, mas de um corporativismo autoritário: transferir poder para grandes empresas, enquanto o Estado abandona seu papel de mediador e protetor dos mais vulneráveis. O resultado é a exploração ampliada, com salários estagnados e condições de trabalho degradantes — um cenário que distancia esses governos até mesmo de vertentes mais moderadas do liberalismo econômico, que pressupõem regras claras e concorrência justa.

O antimultilateralismo é outra face dessa estratégia destrutiva. Instituições como a ONU, a OMC e os acordos climáticos surgiram após a Segunda Guerra Mundial justamente para evitar conflitos e coordenar respostas a desafios globais. Ao rejeitá-las, a extrema-direita não apenas enfraquece a governança internacional, mas também prejudica os próprios trabalhadores que diz defender.

Por fim, há um ataque frontal aos valores iluministas. O século XVIII consagrou a razão, a educação e os direitos universais como pilares da civilização ocidental. A extrema-direita, porém, alimenta narrativas anticivilizatórias: despreza fatos científicos, glorifica a violência como instrumento político e cultua um passado mitificado onde hierarquias rígidas (étnicas, de gênero, sociais) eram inquestionáveis.

Trump, ao chamar neonazistas de “gente muito boa”, ou Bolsonaro, ao elogiar torturadores da ditadura, não estão apenas reescrevendo a história — estão normalizando a ideia de que a democracia e os direitos humanos são negociáveis.

Nesse contexto, é urgente reconhecer que a extrema-direita não é uma vertente do liberalismo, mas seu antípoda. Seu projeto combina neoliberalismo predatório para as elites com autoritarismo político para as maiorias. Trabalhadores perdem direitos, liberais veem instituições democráticas definharem, e o planeta caminha para colapsos ambientais irreversíveis.

Sua derrota depende de lembrarmos que, por mais diferentes que sejam algumas bandeiras liberais e socialistas, a democracia e a dignidade humana são causas indivisíveis.

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