Crise sanitária: enquanto alguns que podem se cuidam, outros, mesmo assim, não

Neste sábado, 27, no final da tarde, em plena crise sanitária, um quadro emocionou. Aconteceu na praça aqui perto de casa. Da janela, o que me chamou a atenção para o evento foi o buzinaço incomum por essas bandas.

Era uma carreata de alegria. Balões enfeitavam os carros. Na maioria, pais, mães e crianças. Num canto da praça, dois outros automóveis se encontravam estacionados. Da mesma forma que os demais, bem enfeitado de balões. Nestes, descobri o alvo da euforia.

Não ficou difícil de entender, rapidamente, que se tratava de um aniversário. A caravana passava buzinando, entregava o presente, e os carros, um a um, estacionavam mais na frente. Todos iam fazendo o mesmo, na ampla e vazia praça de um sábado de fim de tarde.

Enfim, mantendo a distância, todos cantaram o parabéns pra você, na maior animação. As crianças acenavam de longe na direção de outras crianças nos dois automóveis inicialmente parados. Festejo contido pela distância, é verdade. Mas, um festejo animado e digno, nesses tempos de pandemia.

A dignidade

A dignidade reside no fato de que cada uma daquelas famílias cumpria, claramente, o isolamento social. Humanos, e em respeito ao que proclama, frente à crise sanitária, a ciência, e porque podiam, exerciam o direito de se resguardar do assédio, com chances letais, do vírus. Porém, de manifestar-se em contentamento pelo aniversário de um ente querido.

Certamente, não é por conta dessas pessoas, que podem e, por isso, se resguardam, que o Brasil aparece liderando os números dessa sexta-feira, 26, em novo recorde diário mundial de Covid-19. Aliás, nessa triste contabilidade, nosso país tem a companhia dos Estados Unidos.

No mundo todo, diferentemente do que apregoam os incansáveis negativistas, a sexta-feira, 26, foi dia de recorde em novas infecções. Nesse diapasão, foram registrados 191.700 novos infectados no planeta, superando o 18 de junho, quando houve 181.600 novos infectados.

Porém, as praias da Inglaterra lotaram no último final de semana. Bares e restaurantes nos Estados Unidos, e, também, na Europa, estão atraindo, de ímpeto, uma gente que parece ter esquecido os perigos da crise em vigor. Supermercados e ruas de compra e venda em São Paulo e no Rio de Janeiro pintam no quadro da irresponsabilidade geral apinhadas de alheadas criaturas. Tudo isso formando um painel dos sonhos para o vírus se propagar à vontade e sem peias.

É uma loucura completa. Não há curva em descenso. Sequer o pico das infecções foi alcançado, por exemplo, no Brasil. Enquanto em outras partes do mundo parece se instalar uma segunda e perigosíssima onda.

Apesar disso

Apesar disso, tudo está sendo reaberto, o que permite prever uma imensa e continua legião de infectados. Não há dor de consciência capaz de fazer com que os interessados na reabertura geral repensem suas posições. E, por exemplo, entendam que cabe ao Estado amparar o maior número de pessoas possível no sentido de fazê-las com condições mínimas de se resguardarem.

Vizinhas de algumas dessas louvaminhas do desconfinamento generalizado já me disseram que muitas delas são praticantes fervorosas da quarentena. Não saem de casa por nada neste mundo. Portanto, os demais que se abufelem junto com a Covid-19.

Mas, como assisti ontem na praça aqui perto, há ainda muita gente, evidentemente, com condições, que segue se orientando pela quarentena. No máximo, uma extravagância como a patrocinada por essa turma comemorando um aniversário praticamente de dentro de seus automóveis.

Evidentemente que não são estes os que estão provocando aglomerações e, portanto, novos infectados. Ou seja, contribuindo para que o coronavírus siga impávido o seu caminho destruidor de vidas e de economias pelo Brasil e pelo mundo afora. Num processo medonho que não se tem, ainda, a menor ideia de onde vai parar. E pior: se vai parar, mesmo, completamente.

(Sérgio Botêlho)

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