Sérgio Botelho – No dia 14 de janeiro de 1931, o capitão Juarez Távora, líder da Revolução de 1930 no Norte-Nordeste do país, completava 33 anos. Aproveitou a data para se casar com a prima Nair Belisário Távora, em cerimônia com a presença do presidente Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, acompanhado do seu ministério e das mais altas figuras da elite brasileira.
Enquanto a celebração se revestia de brilho, uma grande parte do país se mobilizava em torno de um movimento até hoje singular e único na história do Brasil: nas capitais e em várias cidades do Norte (que compreendia os estados do Acre ao Espírito Santo) o povo se mobilizava em favor da nomeação de Távora para o quadro de generais do Exército Brasileiro que, segundo a intenção, deveria ser definido por resolução presidencial.
O movimento, nos meses iniciais do governo imposto pela Revolução de 1930, partia mais uma vez da Paraíba. Em 23 de dezembro do ano revolucionário, na condição de um dos membros do comando do 22º Batalhão de Caçadores, em João Pessoa, Juracy Magalhães (cearense, de Fortaleza, mas que entre 1931 e 1937 governaria a Bahia) escreveu a Távora propondo-lhe consentir com a deflagração da referida campanha popular visando a ascensão oficial ao generalato do Exército.
A proposta era estratégica, uma vez que, conforme argumentava Magalhães, “se não tiveres uma situação de realce material –pois moral tens de sobra –dentro do Exército, a revolução fracassará em sua finalidade, o que será doloroso para a memória dos nossos mártires e desprimoroso para os que tiveram alguma parcela de responsabilidade para o movimento”, explicava Juracy, segundo reproduzido no artigo acadêmico “O general do Norte: Juarez Távora e o movimento pelo seu generalato no imediato pós-1930”, de Raimundo Helio Lopes, professor-doutor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense.
O proponente do inusitado movimento havia sido líder de primeira hora da Revolução de 1930, na condição de um dos comandantes do assalto ao 22º BC, na Paraíba, cuja preparação teve a participação pessoal de Juarez Távora. Na sua visão, o generalato seria uma garantia para o cumprimento do programa revolucionário, pois, segundo pensava, Távora precisava “ter a força material para poder exigir a execução do que prometemos ao povo”.
Contudo, na condição de principal beneficiário da mobilização, Juarez se negou, todo o tempo a aceitá-la, mesmo diante dos fortes argumentos políticos de Juracy, expressando o pensamento dos interventores do Norte. Em sua justificativa, o líder revolucionário se recusava a atropelar os procedimentos oficiais que normalizavam o processo de ascensão hierárquica nas Forças Armadas.
No dia anterior à mobilização, Juarez Távora telegrafou a todos os interventores do Norte, expondo oposição firme à reivindicação, o que não impediu sua concretização. Na capital paraibana, segundo A União, de 15 de janeiro de 1931, 20 mil pessoas se reuniram na Praça João Pessoa, sob a liderança do interventor Antenor Navarro: “Milhares de pessoas aclamam, na praça pública, general de divisão, o bravo Juarez Távora”, reportou, em primeira página, o jornal oficial do estado. O mesmo aconteceu nas outras capitais nortistas.
Não deu certo. Juarez somente chegaria ao generalato em 1946, pelas vias consagradas em lei. Mas a mobilização aconteceu, com muito povo nas ruas e praças do país.
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