PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Nem “doidos” temos mais

Sérgio Botelho – João Pessoa, em seus tempos de perímetro urbano mais restrito, era uma cidade em que os caminhos de todos acabavam se cruzando inevitavelmente. Locais como o Ponto de Cem Réis, a Lagoa e a Praça João Pessoa não eram apenas áreas centrais: eram passagens obrigatórias, espaços inevitáveis da cidade. Neles, o fluxo humano era constante e compartilhado — do comerciante ao estudante, do funcionário público ao andarilho.
Essa conformação física da cidade favoreceu o surgimento de figuras populares que, mesmo depois de mortos, mantêm a fama. Muitos desses personagens cumpriam, mesmo que informalmente, uma função simbólica e social na cidade. Eram, ao mesmo tempo, motivo de riso e reflexão, de temor e de carinho. Representavam um tipo de liberdade que escapava às normas e às incontáveis patologizações de hoje e davam ao cotidiano urbano um toque de teatralidade e surpresa. Eram sensores de humor, portadores de críticas involuntárias, espelhos de uma sociedade que neles também se reconhecia.
A memória pessoense registra um grande número dessas figuras notáveis, algumas mais outras menos, que marcaram a vida da cidade. Grão de Bico, Tenente da Gelada, Macaxeira, Mocidade, Caixa d’Água, David Dono do Mundo, Vassoura, Chinelo, Carboreto, Manezinho Luna, Doutor Cagão são algumas das figuras de forte presença memorial na capital paraibana.
O padeiro irritadiço, o inabalável admirador do ex-presidente João Pessoa, o piloto sem carro, o tribuno admirável, o poeta noctívago, o devoto de status e poderes, a cavaleira intrépida, o mendigo existencialista, o moço em busca do progresso pessoal, o alcóolatra e o impaciente senhor de terno amarrotado, todos marcaram época no correr da história pessoense.
Eram figuras populares — comumente apelidadas de “doidos” — que ganhavam notoriedade por falas ou gestos excêntricos ou manifestações comportamentais singulares, amplificados pelo olhar coletivo que os reconhecia e os acolhia. Suas histórias circulavam com facilidade, fazendo com que terminassem abandonando a margem e ganhando o centro das atenções.
Hoje, a cidade se expandiu. A malha urbana se espalhou para muito além de seus antigos limites, multiplicaram-se os bairros, as rotas, os centros de convivência. A circulação passou a ser fragmentada. Há dezenas de pontos de passagem, de encontros que não se cruzam. Com isso, esmaece a figura “conhecida por todos”, especialmente aquelas que não se enquadram nos modelos convencionais de notoriedade. A fama espontânea das excentricidades — que antes era quase inevitável — tornou-se rara.
A cidade cresceu, e com a expansão se dispersaram os olhares. Ficou mais difícil ser notado, ainda mais difícil ser lembrado. A ampliação física trouxe, também, uma forma de anonimato coletivo, em que as singularidades caminham isoladas, sem o palco comum de outrora. O “doido” de hoje pode continuar a existir — mas em áreas cada vez mais restritas — e não mais na memória coletiva da cidade inteira.
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