Discurso de Chaplin em O Grande Ditador

Nesses tempos de incertezas e da proliferação de teses de extremismo antidemocrático, nada como a gente lembrar do atualíssimo discurso de Charlie Chaplin no final do filme O Grande Ditador.

Lançado em 1940, o filme e o discurso desafiaram abertamente o nazismo e o fascismo numa época em que os EUA ainda não haviam entrado na Segunda Guerra Mundial. Chaplin, um comediante britânico, teve a coragem de usar seu prestígio internacional para fazer um alerta político e humanitário.

A fala de Chaplin se constitui num dos momentos mais marcantes e emocionantes da história do cinema. Nele, Chaplin — interpretando um barbeiro judeu confundido com o ditador Adenoid Hynkel (uma sátira de Hitler) — abandona o tom cômico do filme e faz um apelo direto à humanidade.

Ao longo do filme, Chaplin ridiculariza o fascismo por meio da sátira. Então, no final, ele abandona a caricatura e se apresenta com sua verdadeira voz, em tom sério e comovente. Essa transição transforma a comédia em um manifesto ético e político poderoso.

Na íntegra, o discurso de Chaplin:

odos – se possível – judeus, o gentio… negros… brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim.
Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que
havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para
todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A
cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio…
e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos
a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina,
que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos
fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em
demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas precisamos de humanidade.
Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a
vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A próxima natureza dessas
coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem… um apelo à fraternidade
universal… à união de todos nós.
Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora…
milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema
que tortura seres humanos e encarcera inocentes.
Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis!” A desgraça que tem caído
sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia… da amargura de
homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam
desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de
retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos
escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as
vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo,
que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado
humano e que vos utilizam como carne para canhão!
Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas
almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem
amar e os inumanos.
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade!
No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro
do homem – não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens
todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O
poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e
bela… de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia –
usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um
mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e
segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só
mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores
liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater
as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por
um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à
ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah?! O
sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz!
Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão
acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do
homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da
esperança.
Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!


Discover more from Parahyba e Suas Histórias

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Comente