Diego Maradona: reverência ao ser humano e ao atleta

Sérgio Botêlho – A notícia da morte de Diego Maradona foi verdadeiramente um choque para o mundo do futebol. Mais além desse mundo de espetáculo e lazer tão especial, também sofre a gente que nutre amor pela humanidade.

Assim, entre os humanistas e futebolistas, ao mesmo tempo, porque o craque argentino cumpria as duas facetas em sua vida terrena, ou seja, jogou um futebol maravilhoso e se comportava como um ser humano no mesmo nível de qualidade.

Uma qualidade tão alta que terminou ferindo muita gente, com seus malabarismos fantásticos nos campos de futebol. Mais do que dribles e jogadas desconcertantes, seus gols, que era o pior que podia acontecer aos adversários.

Entre esses adversários feridos, num determinado momento, esteve a Seleção Brasileira de 1990, num domingo fatídico de 24 de junho. Foi um horror aquele gol de Claudio Caniggia, a 9 minutos de terminar a partida, com passe de… Maradona.

Desse jeito, Maradona tirava o Brasil da Copa de 90, fazendo-nos esperar mais 4 anos por uma nova Copa, sendo que a última ganha pelo Brasil já fazia 20 anos. Na Argentina, alegria total. No Brasil, choro e ranger de dentes.

Mas, como era possível transformar o choro em raiva de Maradona pelo resto da vida? Isso somente era possível por mais alguns meses, até que viéssemos a vê-lo de novo em ação, jogando um futebol vistoso e encantador aos olhos de todos os que amam o futebol.

Mas, não era somente de amor ao futebol que vivia Maradona. Também seus dramas pessoais, revelando o homem por trás do deus, emocionava a quem não perde a paixão pelo ser humano, com todas as suas virtudes, mas também, com os seus defeitos.

Entre os defeitos de Maradona havia o vício das drogas. Um vício que arrancou dele o bom futebol, tirou-os dos estádios e lhe transformou, em determinados momentos, num trapo humano, por vezes parecendo estar à beira da morte.

Mas, mesmo aparentemente à beira da morte, Maradona havia de mostrar a outra face de seu caráter. No campo político, alinhou-se às correntes com posições mais favoráveis aos pobres e desassistidos.

Não só pela palavra, porém, da mesma forma, pelas ações, tornou-se um contribuinte em prol dessa gente necessitada. E propugnou fortemente por um sistema político e econômico que possibilitasse melhor distribuição de renda.

No entanto, o vício continuava a consumir-lhe a vida, revelando, perversamente, deter um poder bem maior do que a força que fez de Maradona um semideus em sua terra querida, a Argentina, com aquiescência do mundo inteiro amante do futebol.

Neste momento, o mesmo mundo que o admirou assiste chocado ao anúncio de sua morte. Uma morte esperada, é verdade, mas nunca admitida diante do que o craque argentino representava para o lazer e a busca da felicidade, com uma parte disso tudo sendo ofertada nos estádios de futebol.

Infelizmente, os estádios de futebol estão fechados diante da pandemia. Infelizmente porque com toda a certeza o nome de Maradona iria ser gritado por milhares de pessoas pelo mundo afora nas partidas de meio e de fim de semana. Homenagem mais do que merecida.

Enquanto isso, os argentinos começam a preparar a despedida para o maior herói futebolístico que aquela pátria irmã já teve. E, em nome de todos nós, gritarão por ele nas ruas de Buenos Aires ao se despedir de um homem imperfeito, como todos os homens, mas que beirou a perfeição na arte de fazer do esporte um meio de alegria e felicidade geral. E que mesmo em meio à uma tormenta particular soube tomar posições dignas e corretas com relação à Terra e ao ser humano.

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