Provas da necessidade do Dia da Consciência Negra

Sérgio Botêlho – A sexta-feira, 20, começa com uma notícia diabólica e ao mesmo tempo didática. Grupos tradicionalistas católicos conseguiram proibir missa afro, em homenagem ao Dia da Consciência Negra, anualmente celebrada na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, na Glória, no Rio de Janeiro, em todos os 20 de novembro.

O fato é diabólico porque jamais uma interferência desse tipo pode se inspirar em Cristo. Segundo, porque revela o significado claro da palavra racismo, não exatamente emanada de tapinhas nas costas e risos disfarçados, mas sobretudo da intolerância no compartilhamento de crenças e repartição do poder.

Já no passado, esses grupos – que, nesta sexta-feira, 20, afinal conseguiram a ordem da Arquidiocese fluminense, para interromper o culto – se mostram incomodados com a miscigenação litúrgica do catolicismo com culturas e crenças afros, o que tradicionalmente ocorre no Brasil, inclusive, com culturas e crenças indígenas, desde a sua formação.

Na verdade, esses grupos impertinentes são refratários em admitir a importância da cultura negra, e se acham no direito de interromper qualquer experiência de valoração dos rituais afros e de suas crenças, ainda que respeitosas e sincretizadas com os rituais brancos e católicos, em nada, absolutamente nada, superiores aos afros.

De tal forma esses grupos brancos e racistas se impuseram sobre a igreja do Rio de Janeiro, que conseguiram a proibição a partir da cúpula católica. Diferentemente dessa orientação, a Igreja Católica na Bahia, por exemplo, há séculos que mistura liturgias, e por isso é tão forte naquele estado, com o natural respeito às crenças e culturas africanas.

O próprio Vaticano, nos dias de hoje, sob a orientação do Papa Francisco, tem pregado exaustivamente o respeito e a convivência respeitosa e pacífica entre as diversas religiões. Assim, para desespero e ranger de dentes desses alinhamentos brancos católicos tradicionalistas, completamente fadados aos escaninhos obscuros da história cristã e humana.

Nada mais acontecesse nesta sexta-feira, 20, sobre a importância do Dia da Consciência Negra, a ocorrência da Igreja da Glória, no Rio de Janeiro, por si, constitui-se em elemento justificador para haja um dia assim, totalmente dedicado à pregação da igualdade entre os homens, independentemente de cor ou credo.

Da mesma forma que o assassinato de um negro, num supermercado em Porto Alegre, depois de ser violentamente espancado por seguranças, já perto da madrugada deste 20 de novembro, mostra o quanto é importante a luta contra o racismo, no país.

Na verdade, esses agrupamentos racistas temem, sobretudo, a possibilidade de os negros terem acesso à cultura e ao poder, sendo o exclusivismo religioso apenas uma face desse pavor para com a concorrência dos afrodescendentes. Acontece que os poucos negros que conseguem romper a barreira chegam a igualar, e, mesmo, superar os brancos nas mais diversas atividades humanas.

Não que sejam superiores, mas também não são inferiores figuras como o ex-presidente Barack Obama – como todo político, também sujeito a erros -, até agora, considerado pelo seu povo, o norte-americano, como o melhor presidente da história do país.

No esporte, então, os exemplos são inúmeros. Até hoje, Pelé é considerado o maior atleta do século XX, enquanto Lewis Hamilton segue se consolidando como o maior nome da Fórmula I, em todos os tempos, um esporte particularmente aberto totalmente para brancos.

Na beleza, convém assinalar que em diversos concursos universais, ultimamente, vitórias de candidatas africanas e asiáticas têm quebrado a mesmice de vitórias brancas majoritárias desde 1952, rompendo, assim, com o estabelecimento de padrões de beleza ocidentais normalmente utilizados nesses concursos. A atual miss Universo é uma negra da África do Sul, Zozibini Tunzi.

Na arte e na cultura, então nem se fala. Na música e nas artes teatrais e cinematográficas, e, ainda, em todos os outros segmentos das manifestações sensíveis da humanidade, estão os negros em posição de igualdade com todas as outras cores de pele humanas.

Portanto, independentemente de retrocessos como o desta sexta-feira, 20, na Igreja da Glória, no Rio de Janeiro, ou do assassinato do negro pelos seguranças da Carrefour porto-alegrense, é imperativo que os negros continuem lutando e resistindo ao racismo estrutural vigente na sociedade brasileira, sendo o Dia da Consciência Negra fundamental para o fortalecimento dessa resiliência.

Não pode haver sociedade próspera, nem econômica nem socialmente, sem que tenhamos alcançado a mais perfeita coexistência entre as raças e, também, os credos. A capacidade humana independe, completamente, da cor da pele. Quem prega o contrário apenas deseja viver para sempre da mamata de ser branco, que está longe de ser um defeito de todos os brancos, naturalmente. 

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