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Augusto dos Anjos, na ótica de Hildeberto Barbosa Filho

Augusto dos Anjos, e sua poética inspiradora, segundo Hildeberto Barbosa Filho

Sérgio Botelho – Em crônica publicada em A União, do último domingo, 27, e republicado no espaço Letra Lúdica, do Facebook, o acadêmico e poeta Hildeberto Barbosa Filho propõe uma ideia instigante: criar uma antologia não de Augusto dos Anjos, mas do que se produziu a partir de sua poética.

O texto reflete sobre como a figura do poeta paraibano, conhecido por sua obra visceral e sombria, ecoa na produção de outros artistas, gerando homenagens, diálogos e até reinterpretações. A proposta não é apenas celebrar Augusto, mas revelar como sua poética transgressora — repleta de imagens brutas, dissonância e temas como a morte e a decadência — continua a fascinar e influenciar gerações de escritores, dos consagrados aos menos conhecidos.

A crônica destaca, por exemplo, João Cabral de Melo Neto, que em Serial (1961) coloca Augusto ao lado de nomes como Marianne Moore e Cesário Verde. Cabral, conhecido por sua poesia seca e geométrica, contrasta com a linguagem orgânica e febril de Augusto, mas reconhece nele uma “geometria de enterro”, uma precisão fúnebre que ressoa em sua própria obra. Hildeberto aponta o paradoxo: um poeta “mineral” (Cabral) e outro “vegetal” (Augusto) unidos pela busca do essencial. Essa análise mostra como a força de Augusto ultrapassa estéticas e gera conexões inesperadas.

Ferreira Gullar também entra em cena, aproximando Augusto dos Anjos de Graciliano Ramos, outro mestre da aspereza nordestina. A síntese entre prosa e poesia, entre o sóbrio e o agonizado, revela como a linguagem de Augusto dialoga até com formas literárias além do verso. O texto ainda cita uma constelação de poetas — Marcus Accioly, Chico Viana, Francisco Carvalho, entre outros — que, em tom elegíaco ou sombrio, homenageiam o “bardo do Pau d’Arco”.

Hildeberto sugere que essa antologia seria mais do que um tributo: seria um mapa de afetos e afinidades literárias. Ao reunir vozes tão distintas, revelaria como Augusto dos Anjos, com sua melancolia transgressora, se tornou uma espécie de espelho para outros artistas refletirem suas próprias obsessões. A ideia é celebrar não só o poeta, mas o diálogo contínuo entre criadores, onde admirar um mestre é também reinventá-lo.

No fim, a crônica lembra que poetas existem para louvar outros poetas — e Augusto, com sua sombra lírica inquietante, parece ser um desses faróis que nunca deixam de iluminar. A proposta de Hildeberto, além de instigante, é um convite para redescobrir Augusto dos Anjos não apenas em sua solidão criativa, mas no coração pulsante de uma tradição que se renova a cada verso escrito em sua honra.

Letra Lúdica

Hildeberto Barbosa Filho

Augusto dos Anjos, poema

Augusto dos Anjos, eis um ponto de partida para uma boa antologia. Não uma antologia dos seus poemas, colhidos no Eu e outras poesias, mas dos poemas sobre ele ou mesmo a ele dedicados pelos seus pares, ao longo da tradição literária. Imagino que todo poeta tem o seu Augusto! Vez ou outra, nenhum escapa ao peso de sua sombra lírica!

O critério seria o temático, calcado, é óbvio, na singularidade de sua poética individual, incomum, transgressora, em face do contexto estético em que surgiu e se disseminou, quer do ponto de vista das soluções técnico-formais e estilísticas, quer no que concerne aos apelos temáticos e motivadores.

Tenho me preocupado com isso há algum tempo. Já li muitos poetas, entre as velhas e as novas gerações, entre maiores, medianos e menores, que expressam sua admiração pela voz superior do ilustre filho de Sapé. E fico a imaginar o quanto um trabalho dessa natureza poderia satisfazer o gosto estético dos que amam a sua melancólica poesia.

Começaria com gente grande, um João Cabral de Melo Neto, por exemplo, que o tomou como assunto no longo poema “O sim contra o sim”, de Serial (1961), colocando-o ao lado de nomes como Marianne Moore, Francis Ponge, Miró, Mondrian, Cesário Verde, Juan Gris e Jean Dubuffet.

Interessante como o autor de O cão sem plumas elenca exemplos de uma vertente plástica e visual, corpórea e imagética, para inserir Augusto num viés que vai além de sua musicalidade dissonante e do seu expressionismo simbólico.

O poeta pernambucano captura a medula verbal do paraibano, pois ressalta, bem a seu modo seco e preciso, que “Augusto dos Anjos não tinha/dessa tinta água clara./Se água, do Paraíba/nordestino, que ignora a Fábula. (…) Donde certo o timbre fúnebre,/dureza da pisada,/geometria de enterro/de sua poesia enfileirada”.

É bom que Cabral lembre de Augusto. Eles são tão diferentes e tão semelhantes! Um, pétreo, seco, mineral; outro, orgânico, úmido, vegetal. Dicções diversas, porém, unidas na mesma disposição para o essencial.

Ferreira Gullar, no seu instigante ensaio, “Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina”, faz rápido e sugestivo cotejo entre os seus respectivos discursos, irmanando-os no mesmo parâmetro poético, substantivo e seminal. Se existe, por sua vez, prosador por perto, Gullar convoca a sintaxe áspera e medida de um Graciliano Ramos, para robustecer essa família de mestres e inventores.

Muitos outros poetas dedicaram poemas ao autor de “As cismas do destino”. Gente de casa e gente de fora. Em certo sentido, e cada um à sua maneira, cultivando o sentimento singular das chamadas afinidades eletivas.

Um Marcus Accioly, por exemplo, num belo soneto do livro DaguerreÓtipos (2008), presta sua justa homenagem ao bardo do Pau d’ Arco, trazendo à tona, sobretudo, os lampejos sombrios de sua expressão agoniada.

Sérgio de Castro Pinto, Eulajose Dias de Araújo, Lenilde Freitas, Gilmar Leite Ferreira,  Raniery Abrantes, Da Costa, Chico Viana, Nauro Machado, Francisco Carvalho, Arturo Gouveia, José Alcides Pinto, Luis Augusto Cassas e tantos mais selaram, na pauta efusiva de um poema, o destino trágico e elegíaco de sua poesia incomparável.

Quem sabe, um dia, não reúna todos num mesmo preito antológico e consiga instaurar a flexibilidade do diálogo na esfera da mais saudável estesia. Afinal de contas, os poetas também existem para louvar os seus poetas.

(Publicado ontem, 27/04/25, em A União)

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