A casa de Augusto, por Hildeberto Barbosa Filho

O poema “A casa de Augusto”, do acadêmico Hildeberto Barbosa Filho, publicado nesta sexta-feira, 01 de dezembro de 2023, em seu perfil no Facebook, oferecida ao também acadêmico Milton Marques Júnior, que publicou recentemente livro “Ei-lo pulando de uma casa para outra, nas ruas da capital – Um roteiro de Augusto dos Anjos, nas ruas da Paraíba (Ideia Editora, 100 páginas”, é uma construção poética que se concentra na busca simbólica pela identidade e a casa do poeta paraibano. O poema, que transcrevo no Para Onde Ir, sugere que a casa de Augusto não pode ser encontrada de maneira física, pois os poetas habitam um espaço intangível, imaterial e transcende o espaço físico.

O poema aborda temas como a fugacidade da vida, a transitoriedade da existência humana e a natureza efêmera das coisas materiais. Também evoca imagens poéticas, como “os poetas residem no ar rarefeito da biosfera” e “casa de sombras e de assombros”, para criar uma atmosfera melancólica e reflexiva.

A referência a elementos da vida e cultura paraibana, como a Serra da Borborema, Jesus na Serra da Borborema e outros detalhes locais, adiciona uma camada de identidade regional ao poema.

No final, o poema sugere que a verdadeira casa de Augusto dos Anjos está na sua poesia, nos seus versos e na sua própria existência como poeta. A casa seria um símbolo da sua obra e do seu legado na literatura brasileira.

A casa de Augusto, por Hildeberto Barbosa Filho
(Para Milton Marques Júnior)
Por que procurar
a casa de Augusto?
Estaria essa casa
no Beco do Carmo,
na Rua Direita, no Beco
Malagrida?
Onde, quando, por que
a casa de Augusto?
O Pau d ‘ Arco, Recife,
a terra pobre de Cruz
do Espírito Santo?
Prefiro pensar
que a casa de Augusto
nunca existiu.
(Ah! O abstrato das saudades!).
Nunca existiu a casa
de Augusto.
Nem na capital, nem no Rio,
nem em Leopoldina.
Augusto não carece
de casa.
Os poetas não têm casa.
Inútil procurar a casa
de Augusto.
Os poetas residem
no ar rarefeito da biosfera.
São sombras magras
com pele de rinoceronte.
Tivesse casa, Augusto,
seria a Ponte Buarque
de Macedo,
o negro peito da ama
Guilhermina,
a lâmina minuciosa
de uma metáfora apocalíptica.
Casa por casa, por que
não pensar nas volúpias
da Ilha de Cipango,
na solidão das lagartixas
espiando as coisas mortas,
no chocalho fatídico dos ossos,
no verme que rói e arruína,
nas viagens da monera,
na cicatriz do quarto minguante,
na poesia de tudo quanto
é morto?
Quem sabe, a casa
de Augusto não transcende
a vila de Sapé, a usina
triste, o tamarindo, o corrupião
sem sorte?
Sua casa, se casa existe,
se foi com as águas do rio
Paraíba,
vista das margens
como um palácio paradoxal.
Casa sem nenhuma
arquitetura,
maquete desarticulada,
casa de sombras
e de assombros.
Casa cujo endereço
se perde nos carvalhos
da poesia.
Casa fechada e obscura
onde os fantasmas bebem
o vinho dos versos
mais perfeitos.
Onde a dor reina, soberba
e absurda, diante do nada.
Onde a arte arde e explode
seus signos malditos
como a única forma de existir.
A casa de Augusto
está localizada na avenida
de seus sonetos.
Seu número é o mesmo
da aritmética da morte.
Casa inatingível, sem
destinatário.
Não importa a cana
do engenho, não importa
se Jesus viveu na Serra
da Borborema.
Não importa o milagre
do finado Toca.
Não importa o gemido
da árvore na serra,
o positivismo, o ébrio,
o coveiro, a sibarita.
A casa de Augusto
é a casa do seu pai.
Do pai.
Por que não procurá-la
naquele carro de glórias
subindo aos céus, Elias
no volante, aureolado?

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