Augusto dos Anjos: lembrado para ser esquecido?

Lançamento do Eu, na Livraria do Luiz.

Sérgio Botelho – O Para Onde Ir reproduz texto do acadêmico, poeta e escritor Hildeberto Barbosa Filho, que fala sobre um evento especial — o lançamento da nova edição paraibana do Eu e outras poesias, de Augusto dos Anjos — para traçar uma reflexão profunda e dolorosa sobre a cena literária local e a própria condição da poesia no nosso tempo.
O evento, que deveria ser celebração e consagração, revelou-se, aos olhos do autor, também um retrato de esquecimento e indiferença. Com habilidade, Hildeberto alterna entre a exaltação da importância simbólica e estética do lançamento e o lamento pela ausência de público, instituições e imprensa.
A linguagem é rica, cheia de referências cultas (de Eliot a Mallarmé), e seu tom oscila entre a euforia pela beleza da homenagem e a tristeza melancólica diante da solidão do poeta homenageado.
A crítica que emerge é clara e contundente: há uma fratura na vida cultural da Paraíba, uma espécie de isolamento e narcisismo que impede o reconhecimento coletivo até mesmo dos seus maiores nomes.
Ao final, a ironia amarga do autor ecoa com força: Augusto foi lembrado, apenas para que se perceba que continua esquecido. Trata-se de um texto intenso e que consegue, com simplicidade e vigor, transformar um relato de evento em uma meditação crítica sobre a cultura e a memória.

Letra Lúdica
Hildeberto Barbosa Filho
Augusto dos Anjos, esquecido!
Augusto dos Anjos nasceu em 20 de abril de 1884. Abril, para T. S. Eliot, é o mais cruel dos meses. Creio que o autor de “A terra desolada” nunca leu Augusto. Ele, que leu quase tudo, como Mallarmé, desconhecia os versos de “As cismas do destino”, dos “Doentes”, dos “Gemidos de arte”, e outros poemas mais. Tivesse lido, talvez pensasse diferente sobre o mês de abril. Mês de gênios! Mês de poesia!
A Livraria do Luís, através da Tamarindo Editora, lança uma nova edição completa, paraibana, do Eu e outras poesias, com refinamento gráfico-visual indiscutível, para homenagear a memória do maior poeta paraibano. De um grande poeta brasileiro.Trata-se de feito único, de acontecimento exemplar, de evento real e efetivo, com imensas ressonâncias simbólicas.
Eu, que estive lá, que apresentei a obra, sei isto, em suas múltiplas valorações e consequências. Estava feliz pelo privilégio e honra de me acostar, historicamente, a um dos livros fundantes da lírica moderna no Brasil, segundo Lúcia Helena e Abrahãop Costa Andrade, devido a uma breve nota introdutória, falando do estilo e da estesia que caracterizam essa poesia maior.
Feliz, sim, por um lado, o de participar de um lançamento que foi mais que um lançamento. Foi um ritual, foi uma cerimônia, foi um sagrado momento de louvação ao poeta que nos desafia e nos comove na pauta dramática de seus versos inimitáveis. Quem lê Augusto e continua o mesmo?
Mas, como se palmilhasse a ambivalência de seus poemas desafortunados, dentro da lógica dos antagonismos inesperados, das dualidades dialéticas, dos conflitos irresolúveis, que eles sugerem, sugerem e ao mesmo tempo nos envolvem na atmosfera mágica da melhor poesia, também me vi ferido pelos gumes das tristeza. Tristeza do quarto minguante nas noites da várzea do rio Paraíba e nas noites milenares no Cairo!
Éramos poucos, muito poucos no rito singelo de louvação à memória do bardo do Pau d’ Arco. Éramos presas da alegria e da gratuidade, quixotes de mais uma aventura no reino das utopias culturais.
Não vi lá a imprensa, nem escrita, nem falada, nem televisada. Não vi lá as instituições culturais. Nem a UFPB, nem a API, nem a APL. Principalmente, a APL! Augusto dos Anjos é o seu maior patrono, o símbolo nuclear de sua estrutura acadêmica e de seu lastro histórico.
Não vi os poetas da terra. E são tantos! Não vi os estudiosos de sua poesia. Não vi seus leitores anônimos, seus admiradores contumazes. O poeta nunca esteve tão sozinho na memória dos que dizem amar a sua poesia. A verdade, extraída de seus versos, nos esbofeteava no último terceto de “O poeta do hediondo”: “Eu sou aquele que ficou sozinho/cantando sobre os ossos do caminho/a poesia de tudo quanto é morto”.
É a literatura na Paraíba que está morta no mês de abril. Salva-se, no entanto, esta publicação primorosa. Augusto está de volta. Sua poesia está aí, mais uma vez, e para sempre.
O evento me provou uma coisa. A vida cultural da cidade e, em especial, a vida literária, é uma espécie de esquizofrenia aguda. Vive de guetos, está fragmentada, padece de um autismo suplementar, em que ninguém respeita ninguém, ninguém lê ninguém. É um narcisismo cancerígeno que nada pode curar. Nem a grandeza de um gênio, nem a exemplaridade de uma poesia maior.
Augusto foi lembrado. Só para constatarmos que ele está esquecido!
(Publicado ontem, 11/05/25, em A União)

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