Sérgio Botelho – No texto a seguir, de rara densidade afetiva e filosófica, Hildeberto Barbosa Filho traça um retrato visceralmente humano de Washington Rocha, editor do “Portal 100Fronteiras, Democracia, Diversidade e Inclusão”, não apenas como militante e pensador, mas como ser humano em constante travessia interior. O que se revela aqui é menos uma biografia e mais um espelho de grandezas que marcam os espíritos inquietos — esses que vivem entre a ação e o pensamento, entre o ideal e o real, entre a fé e a dúvida.
Washington Rocha surge como um homem tocado pelo sonho, mas também atravessado pela dor do mundo, carregada de ousadia e ternura. O texto, ao rememorar sua trajetória política, intelectual e espiritual, sugere que a verdadeira grandeza está justamente na aceitação do paradoxo: entre Marx e Cristo, entre a utopia coletiva e a esperança íntima.
Assim, mais que um elogio, o texto é uma reflexão sobre os destinos humanos e o valor de quem ousa pensar diferente ao longo da vida — mesmo que isso custe espantos e estranhamentos. Afinal, como lembra Hildeberto, os paradoxos não são fraquezas: são sinais dos grandes espíritos.
Letra Lúdica
Hildeberto Barbosa Filho
Washington Rocha!
Um Portal como o “100 Fronteiras” só poderia ser criado por uma figura humana como Washington Rocha. Um Quixote, um utopista, um visionário, um ser que não teme os sortilégios do sonho, a fertilidade das ideias nem a força dialógica dos ensaios democráticos.
Washington Rocha pensa e fala abertamente de seus credos e perspectivas, mas, sem fazer qualquer obstrução ao pensamento alheio, sobretudo, se este se vê fundado em conceitos e categorias procedentes. Aqui, sabe agir como um sábio silencioso, contemplado pelo bálsamo de uma rara capacidade de escuta.
Conheço Washington Rocha desde os idos de 70 do século passado, quando de nossa tenra juventude em meio à luta dos estudantes secundaristas e universitários em face do regime monstruoso e da ditadura militar. Ásperos tempos, subterrâneos da liberdade, noite de agonia, diria Jorge Amado acerca de outra ditadura, a do Estado Novo.
Nas tensas e agitadas assembleias, era ele, com Irlanio Ribeiro e Sérgio Botelho, quem melhor expressava nossas inquietações políticas e nosso ideário de justiça, equidade e cidadania, sempre estribado numa retórica incendiária e persuasiva que nos tocava corações e mentes.
Washington Rocha sempre foi um militante, um homem de açao, uma criatura a serviço do outro e visceralmente comprometida com as possibilidades de uma sociedade aberta e com um mundo melhor.
Homem de ação, mas também um intelectual orgânico, de vertente filosófica, responsável por alguns títulos seminais na clareira do debate intelectual, a exemplo de No coração de Antígona: ensaios histórico-filosóficos (2002), Também eu sou da raça dos deuses (2009) e A ceia profana do marxismo: tragédia e farsa (2019), além de outros volumes que organizou, como este mais recente: Palavras 100 fronteiras (2025), com a participação de diversos escritores e ensaístas que respondem pelo melhor do pensamento crítico na Paraíba.
Não sei porque, sempre que vejo Washington Rocha, lembro-me de Raskolnikov, célebre personagem de Dostoievski, do romance Crime e castigo. Sinto, nele, o palpitar de algum tormento interior, porém, associado a uma coragem e a uma ousadia incomuns, embora misturadas com certa fragilidade e certo desamparo que, pelo menos a mim, me encanta. Washington Rocha é um iluminado dostoievskiano!
Generoso, aguerrido, inquieto, seduzido pelas paixões teóricas e pelo fluxo ininterrupto do conhecimento, Washington Rocha fez um percurso ideológico dos mais surpreendentes. Não se diz mais um marxista. Considera-se um cristão, o que a muitos de seus amigos e admiradores causa pasmo e espanto. Talvez nem devesse.
Do anátema ao diálogo foi escrito por Roger Garaudy e parece demonstrar, se não estou enganado, os pontos de intersecção entre Cristo e Marx. Entre o amor ao próximo e a dignidade social. Ideias e homens se encontram quando menos se espera. A esperança não é só um arquejo, é uma virtualidade da civilização.
Talvez isto seja um grande paradoxo. No entanto, não ignoro o paradoxo. Não nego a energia do paradoxo. Creio existir, nos paradoxos, um fluido mágico de verdade. Até porque, como dizia Nietzsche, os paradoxos e as contradições só nascem nos grandes espíritos.
Não tenho dúvidas: Washington Rocha é um deles! Não sei se quando se acosta sob as montanhas de Israel ou quando se deixa devastar pelos monturos da Faixa de Gaza. Sobretudo, quando a Palestina só tem direito à escuridão e à morte.
(Publicado ontem, 08/06/25, em A União)

