Livro “João Pessoa, personagens no tempo”, de Sérgio Botelho, por Hildeberto Barbosa Filho

No artigo “Personagens no tempo”, publicado no jornal A União, deste domingo, 06, já circulando, Hildeberto Barbosa Filho reproduz o prefácio que escreveu para o livro “João Pessoa, personagens no tempo”, de Sérgio Botelho, onde apresenta uma análise da obra, que resgata a história de João Pessoa por meio de 44 personagens marcantes. O livro destaca figuras diversas — de políticos a tipos populares — que, por suas trajetórias singulares, ajudaram a moldar a identidade e a cultura da cidade. Hildeberto enfatiza a importância da memória individual e coletiva na construção do imaginário urbano, elogiando a sensibilidade literária de Botelho ao transformar vidas em narrativas cativantes, humanas e representativas do espírito paraibano.


Letra Lúdica
Hildeberto Barbosa Filho
hildebertospin@gmail.com

Personagens no tempo

Quarenta e quatro nomes dizem muito de uma cidade, porque uma cidade, como canta o poeta, é mais que uma cidade. É, sobretudo, seus habitantes. Sobretudo, certos habitantes!

A paisagem conta, é verdade. Contam os acontecimentos, os vestígios do passado, os monumentos e edifícios que se destacam, ainda, morros de glórias e ruínas. Contudo, não se erguem tais construções culturais sem o cimento espiritual soprado, há muito, pelo elemento específico que as faz, na história, a psicologia plural de uma cidade.

João Pessoa: personagens no tempo (Editora Leme, 2023) constitui o terceiro volume de uma trilogia assinada pelo jornalista Sérgio Botelho, cujo objetivo central reside na evocação histórica, literária e afetiva das capitais da Paraíba (Parahyba e João Pessoa).

Se nos dois títulos anteriores, o autor trouxe à tona os componentes materiais, prédios, praças, conventos, bares, fontes e avenidas, neste, procura privilegiar o personagem de tipo, impersonificado, notável, do mundo político, artístico, literário e cotidiano que, da sua maneira ou de outra, responderam pelo funcionamento humano e humanístico do burgo.

As figuras, aqui elencadas, por mais distintas que sejam na sua peculiar individualidade, carregam um traço comum que as identificam como pessoas visceralmente ligadas à vida e à cultura da cidade. Todas, independentemente de origem, classe, raça e gênero, são como que personagens da gente.

No vinilo, no conto, na memória, fazem risos e linhas na escrita amorosa de Sérgio.

As figuras, aqui elencadas,
(…) carregam um traço comum que as identificam como pessoas visceralmente ligadas à vida e à cultura da cidade.

Quer pelo protagonismo histórico (um Ivan Duarte de Silveira, um Peregrino de Carvalho, um Warholfo Rodrigues, uma Eudes Vieira, um ex-integrante político e intelectual como Carlos Dias Fernandes, um Lins, um Livardo Alves, um Gláucio Lima, entre outros com envergadura de competência ou de representação popular), quer pela singularidade de comportamento ou de estilo (como Cid d’Água, Macaxeira, uma Vassoura), cada um, a seu modo e premido pelas circunstâncias que os envolvem, reflete e expressa virtualidades e estilos de época e de lugares. Maneiras de ser inconfundíveis.

Sábios, loucos, lúdicos, heróicos, grotescos, sublimes, cínicos, astutos, astrais, esses personagens integram um cenário inesquecível. Representam um ângulo curioso e eloquente da mentalidade social, ao mesmo tempo que tocam o extraordinário, no seu fervente mágico, entre a cena opaca do ordinário da vida. A escritura detém esse feitiço.

De outra parte, não devo me esquecer que esses “personagens no tempo” também cumprem ação decisiva no imaginário e identidade topográficos da cidade. Eles a impregnam, tornam-na em seus outros vivos e múltiplos. São, enfim, como um tempero ingrediente dessa geografia urbana, o mais individual geograficamente possível.

Sérgio Botelho, a seu modo de escritor e investigador, que não se afasta do ofício de jornalista, nos brinda com um texto atraente, escrito com habilidade, clareza, simplicidade e expressividade. O leitor pode vislumbrar traços do seu estilo nos aspectos de leitura histórica, na análise política, no lance humorístico, irônico, dramático, lírico, amoroso e afetivo que o texto irradia. Tudo isso com linguagem apurada, com ritmo e lirismo.

Tudo está dito: claro, conciso. A frase há de cortar o coração do homem desatento. O narrar, o descrever, o discorrer se mesclam no interior do discurso e se expandem na tessitura do estilo, na costura do conteúdo, no bordado do espírito.

Associado com o conteúdo tão levado, Sérgio Botelho nos convida para um percurso afetivo como o lavrado em histórias de cordel, delineando e explorando o sujeito da cidade, com paixão, zelo e conhecimento. Sua leitura é instigante e saborosa como tudo, na sua Arte poética.

Leia e confie, caro leitor.

 

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