PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Rua Índio Arabutan: um erro oficializado
Sérgio Botelho – O caso da rua Índio Arabutan, no bairro de Cabo Branco, é um exemplo curioso de batismo equivocado de ruas. Logo após o início da urbanização da orla marítima pessoense, no trecho que vai da Avenida Beira Rio à ponta do Cabo Branco, o nome Arabutan foi escolhido para batizar uma das perpendiculares à avenida principal, na Beira Mar. Faltou rigor à pesquisa ou sobrou vontade de criar um herói indígena fictício.
O fato é que a homenagem foi personificada, mesmo com a cidade já contando com verdadeiros nomes indígenas de importância histórica, como Poti, Tabira, Piragibe e Tambiá. E assim, por força da oficialização e do esquecimento crítico, a invenção permaneceu. Décadas depois, no loteamento Clerot, no bairro do Alto do Mateus, a história se repetiria: outra rua foi batizada como “Índio Arabutan”, dobrando a aposta no erro.
A origem desse nome, no entanto, está ancorada em um episódio dramático da Segunda Guerra Mundial. Em 10 de março de 1942, o jornal carioca Diário da Noite, dos Diários Associados — liderados pelo paraibano Assis Chateaubriand — estampava em manchete o afundamento do Arabutan, “quase no mesmo local em que foram torpedeados o ‘Buarque’ e o ‘Olinda’”. O navio, de propriedade da Lloyd Nacional, havia sido bombardeado por um submarino inimigo, segundo a versão oficial — embora o terceiro oficial da embarcação, José Lopes de Medeiros, tenha afirmado ter visto na torre do submarino quatro homens baixos, morenos e de cabelos pretos, o que levantava a hipótese de serem italianos, o que, para efeito da guerra, dava no mesmo.
O Arabutan era um navio mercante construído em 1917, na Itália, com o nome original de Caprera. Havia sido rebatizado em homenagem ao pau-brasil — “arabutan”, na língua tupi — árvore símbolo do país e um dos primeiros recursos naturais explorados pelos colonizadores europeus. Em sua primeira viagem à América do Norte, levava gêneros de primeira necessidade e, no momento do ataque, retornava ao Brasil carregado com mais de 7 mil toneladas de carvão.
À época, o Brasil ainda mantinha uma posição oficial de neutralidade na guerra, apesar de já ter rompido relações com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e de prestar apoio estratégico aos Estados Unidos, que haviam entrado na guerra em dezembro de 1941, após o ataque japonês a Pearl Harbor. A declaração formal de guerra por parte do Brasil só viria em agosto de 1942, cerca de quatro meses após o ataque ao Arabutan, impulsionada pela comoção popular e manifestações em diversas cidades do país.
Assim, o nome do Arabutan, navio que nunca teve nada de indígena, acabou cravado para sempre, em uma das ruas de João Pessoa, sob a forma de um personagem que jamais existiu: o “Índio Arabutan”.
(A foto é do navio Arabutan, amplamente divulgada na época do seu afundamento)
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