Memória e progresso

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Memória e progresso

Pores do Sol em João Pessoa
Pores do Sol em João Pessoa: por sobre os edifícios da moderna Manaíra e os telhados do vetusto Varadouro

Sérgio Botelho – Há quem, apressadamente, entenda ser o memorialismo urbano uma espécie de comportamento de viés reacionário diante do novo, puro saudosismo de tempos que se foram, e que não voltam mais. Contudo, defender a memória de uma cidade em meio ao inevitável processo das mudanças urbanas, motivadas por novas tecnologias, comodidades e visões estéticas, não é, necessariamente, um pensamento reacionário.

Ao contrário disso, preservar a história de um lugar pode ser um gesto propositivo, não um ato de nostalgia paralisante. O pensamento reacionário, em seu sentido clássico, busca restaurar um passado idealizado e rejeita transformações. No campo urbano, isso se expressaria na recusa cega a qualquer inovação, na tentativa de congelar a cidade em uma fotografia antiga. Mas a defesa da memória não precisa seguir esse caminho.

Ela pode ser, e normalmente é, uma forma de resistência à lógica do progresso que apaga histórias, desfaz vínculos e transforma identidades em ruínas silenciosas. Proteger a memória é afirmar que o passado tem lugar no presente — não como obstáculo, mas como parte essencial das escolhas que fazemos sobre como viver juntos.

Há, portanto, nesse debate, um falso dilema: o de que desenvolvimento e preservação não podem caminhar lado a lado. Cidades do mundo inteiro já mostraram que é possível crescer com memória, abrindo espaço para novos usos e soluções urbanas sem rasurar as marcas do tempo. O problema surge quando a memória é usada para cristalizar uma única narrativa, excluindo outras vozes e travando respostas urgentes para os desafios da vida urbana.

A verdadeira preservação patrimonial é inclusiva. Reivindica o direito à cidade com raízes, com identidade, mas também com movimento. Uma cidade sem memória é como um corpo sem alma; mas uma cidade que se nega a mudar é como um corpo que se recusa se adaptar ao meio em permanente mudança. O equilíbrio entre memória e transformação não é uma equação fácil, mas é nesse campo de tensões que nasce a cidade viva.

O que se busca não é o retorno a um passado idealizado, mas a continuidade de uma narrativa urbana rica, plural, viva. Memória e modernidade podem caminhar juntas quando o planejamento urbano é sensível, quando a arquitetura entende o tempo como aliado, e não como obstáculo. Uma cidade que preserva sua história não está parada: está ancorada. E só quem conhece suas raízes pode escolher melhor os caminhos do futuro.

A defesa da memória urbana, portanto, não é resistência ao novo — é resistência ao esquecimento. E isso não a torna reacionária, mas essencial. Porque uma cidade sem memória perde a alma. E uma cidade que rejeita o novo, perde o fôlego. O que precisamos é de cidades que respirem: com passado nos olhos e futuro nos pés.


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