
Um exemplo marcante disso vem da figura de Narciso, tĂŁo exageradamente apaixonado por si mesmo que, ao enxergar sua imagem na ĂĄgua, sob o olhar atento e desafiador da deusa Afrodite, mergulhou em contemplação irresistĂvel, para nĂŁo voltar mais.
DaĂ surgiu a figura do narcisista, devidamente catalogado pela psicologia, que trata do indivĂduo, sem distinção de gĂȘnero, que se acha simplesmente o mĂĄximo. Com essa convicção arraigada, despreza olimpicamente o outro, gerando todo tipo de embate.
O problema Ă© que, no convĂvio humano, seja na polĂtica, na vida familiar ou em qualquer contexto social, tal comportamento nĂŁo se limita a uma questĂŁo de vaidade. Ele se espraia e ganha novas formas, muitas vezes dolorosas para todos, jĂĄ que nĂŁo hĂĄ limite ao narcisista quando o objetivo Ă© se expor, de preferĂȘncia, expondo o outro.
O narcisismo acaba criando um terreno fĂ©rtil para julgamentos negativos baseados em estereĂłtipos. A dificuldade de reconhecer a alteridade leva Ă exclusĂŁo de grupos ou de pessoas vistas como diferentes. Um problema social gravĂssimo.
NĂŁo raramente, um indivĂduo narcisista, ao sentir-se ameaçado ou contrariado ou simplesmente desejoso de confrontaçÔes, pode recorrer Ă calĂșnia como forma de manter sua imagem intacta ou destruir a reputação de quem lhe esteja servindo de alvo.
Nesse sentido, muito facilmente, pode se valer da difamação, de informação desabonadora, ainda que sem qualquer fundamento, com o intuito de manchar a imagem alheia. Para o narcisista, rebaixar o outro pode ser apenas uma estratégia para manter uma falsa sensação de superioridade.
Em todos esses casos, o narcisismo aparece como raiz de uma fragilidade interna escondida por meio da arrogĂąncia. A necessidade de afirmação e de domĂnio que prejudicam os outros, tanto em nĂvel psicolĂłgico quanto jurĂdico. Quando nĂŁo, de esconder seus prĂłprios defeitos.
Esses conceitos todos vĂȘm, em Ășltima anĂĄlise, do pensamento e da mitologia grega. Ao criar o mito de Narciso, e de outros tantos, a exemplo de Ădipo, de Medusa, de SĂsifo, de Ăcaro, de Prometeu, entre vĂĄrios, os gregos identificaram personalidades humanas que nos acompanham atravĂ©s dos sĂ©culos.
NĂŁo me canso de revisitar a filosofia e a mitologia grega. O pensamento humano de ontem e de hoje, tem origem ali.
