Este poema de José Leite Guerra explora a relação entre o espaço físico e o poético. A metáfora do “chão de lua” é belíssima, evocando um ambiente surreal e prateado, onde a poesia se constrói sem as amarras do cotidiano – representadas pelo “cimento imaginário”, “reboco furado” e “rudes parafusos”.
O poeta parece convidar o leitor a transcender as limitações da realidade concreta, abrindo “mil janelas metafóricas” e portas por onde possam entrar ventanias eufóricas, permitindo que o poema flua livremente como espuma sobre areias lisas.
pelo chão de lua
(José Leite Guerra)
cubra o cimento imaginário
de cerâmica argêntea
prateada
imaculada
da lua mais sublime
encontrada nos difusos
fusos horários de noites limpas
não deixe o reboco furado
ríspido da parede da sala
nem os rudes parafusos
prenderem a respiração
do poema vivo em construção
poema que se alteia
sem embaraço de teia
de cordas ou de fios
abra mil janelas metafóricas
e igual número de portas
por onde entrem eufóricas
ventanias sopradas e sopranas
tenha no poema o navio
navegante em águas planas
ou um rito de chamas veladas
em altares onde se consuma
a alegria de sentimentos leves
se vier bando de garças
adejando graciosas asas
aproveite o voo de harmonia
e faça seu poema espuma
livre sobre areias lisas
ser sugado manso, passivo
pela alma sua bem tranquila
pelo chão de lua nova
ou de qualquer fase, renova
sempre a postura de ser aurora
a estrofe, o verso que não devora
a graça, pureza de prata
por tudo mais preciosa
por si mesma mais brilhosa
além do que pode o brilho
da lua criada para ornar
o poema que se forma
sobre o chão da lua
de nudez alva
a lua nua e crua.