Pesquisa universitária detecta coliformes fecais em peixes de cultivo

UEMA faz pesquisas sobre patologias fúngicas em peixes de cultivo; pesquisadores alertam psicultores sobre o resultado

A Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) realiza, desde 2017, a pesquisa ‘Caracterização das patologias fúngicas em peixes cultivados no Maranhão’. As atividades acontecem em três pisciculturas localizadas em São José de Ribamar e três em Paço do Lumiar, onde são feitas as análises microbiológica e físico-química da água e de amostras de pele e brânquia de tilápias. 

As análises histológicas revelaram alterações morfológicas nas brânquias de todos os peixes analisados e chamam atenção para a presença de coliformes totais. A legislação do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) não estipula valores máximos para coliformes, mas o estudo levanta um alerta.

No caso particular do Maranhão, há algumas pisciculturas administradas por pequenos produtores. Todavia, até o desenvolvimento deste estudo, não existia qualquer informação sobre a qualidade sanitária desses locais de criação e sanidade dos animais. Com a descoberta, foi possível a orientação dos pescadores a partir do compartilhamento do resultado dos estudos, incluindo cartilhas desenvolvidas pelos pesquisadores.

A pesquisa é desenvolvida pela coordenadora do projeto, professora Ilka Serra, do Departamento de Biologia (DBIO) da UEMA, juntamente com o professor Thiago Anchieta de Melo e a aluna egressa do Programa de Pós-graduação em Recursos Aquáticos e Pesca (PPGRAP) da UEMA, professora Ingrid Tayane. 

O grupo de pesquisa tem a participação, também, de dois alunos de mestrado, quatro alunos de Iniciação Cientifica e um aluno de extensão. 

Além do desenvolvimento da pesquisa no Laboratório de microbiologia, é realizado um trabalho colaborativo com outros pesquisadores do Laboratório de Biologia Molecular, com apoio da professora Lígia Thaicka, e do Laboratório de Morfofisiologia Animal, com a professora Débora Martins Silva Santos.

“A ideia central do projeto se alinha à demanda estadual, orientada pelo Programa Mais Produção que, a partir do Decreto nº 30.851 de 11 de junho de 2015, passou a coordenar um conjunto de ações integradas na agricultura, pecuária, pesca e aquicultura, com foco no abastecimento em todo o Maranhão”, explica a professora Ilka Serra.

Ilka Serra informa que, inicialmente, a proposta de trabalho se concentrou em entender a dinâmica produtiva de tilápias na Ilha de São Luís, passando por análises realizadas a partir de coletas e aplicação de questionários em pisciculturas distribuídas pelos quatro municípios que compõem a Grande Ilha: São Luís, São José de Ribamar, Paço do Lumiar e Raposa.

Durante a análise foram identificados fungos e leveduras parasitando pele e brânquias dos exemplares observados. Na segunda etapa da pesquisa, a partir de análises morfológicas, citopatológicas e moleculares, foram classificadas as principais espécies presentes nesses agroecossistemas.

A presença da bactéria Escherichia coli foi verificada em cultivo localizado em São José de Ribamar indicando contaminação fecal da água do viveiro, uma vez que essa bactéria pertence à microbiota intestinal de animais homeotérmicos pela vazão de alguma fonte de efluente doméstico diretamente no viveiro ou no poço artesiano que abastece a piscicultura.

Durante o projeto foi possível identificar uma espécie nova de levedura a Candida duobushaemulonii em peixes cultivados em São José de Ribamar e Paço do Lumiar. A espécie já foi encontrada em alguns países como China, Índia, Panamá e, em 2016, no Brasil, sendo estes isolados a partir de fontes clínicas. A espécie encontrada nessa pesquisa representa o primeiro registro no Brasil e pode representar um potencial risco de infecção para o homem, uma vez que a contaminação de alimentos por patógenos pode ocorrer em qualquer ponto da cadeia produtiva.

A pesquisa aproximou a Universidade dos produtores de peixes do Maranhão de forma que ambos foram beneficiados. “Nós por obtermos materiais para estudo e eles também, uma vez que os resultados das análises foram compartilhados com todos os produtores”, afirma Ilka Serra. 

“Produzimos a cartilha e conseguimos distribuir alguns exemplares, inclusive estamos com proposta de submissão de projeto de extensão para a distribuição sistematizada, mas, no momento, foi interrompido por conta da pandemia da Covid-19. Em conjunto, as diferentes fases deste estudo se alinham a um único propósito: aumentar a disponibilidade do pescado de qualidade no estado e fortalecer a cadeia produtiva da piscicultura no Maranhão”, completa Ilka Serra.

Com a análise da sanidade dos peixes tem sido possível diminuir as taxas de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA) associadas ao consumo de pescados, uma vez que a contaminação de alimentos por patógenos pode ocorrer em qualquer ponto da cadeia produtiva, inclusive na produção, e isso se torna um risco quando o peixe é consumido cru ou mal cozido. 

A pesquisa já foi realizada em pisciculturas localizadas em São José de Ribamar, Paço do Lumiar; na Baixada Maranhense nos povoados Itans (Matinha) e Cacoal (Viana) e, atualmente, realizando coletas em Tutóia.

Os resultados obtidos nessa pesquisa geraram a publicações importantes em revistas de alto impacto, como exemplo na revista Aquaculture Research, com o artigo intitulado “Quality of water from fish farms and histopathological analysis of tilapia (Oreochromis sp.) in São José de Ribamar and Paço do Lumiar, state of Maranhão, Brazil”; e o artigo “Registry of saprolegniose in fish cultivated in the world: a compilation of data” publicado na Revista Research, Society and Development. Além de participação no XV Congresso Brasileiro de Ecotoxicologia (Ecotoxi), em 2018.

Cartilha

Ainda fruto dessa primeira etapa do projeto, em 2018, foi lançada a cartilha “Manejo e sanidade na piscicultura: Boas práticas para evitar doenças” na XIII Mostra Acadêmico-Científica em Ciências Biológicas, na UEMA, com a tiragem de 500 exemplares com o intuito de distribuir na XIII Mostra de Produtores de Peixes da Região de São Luís. 

O material didático reúne informações importantes como orientações sobre o manejo adequado para evitar doenças nos peixes cultivados, instruções de como manter uma boa qualidade da água, manutenção dos equipamentos usados nos viveiros e uma tabela para auxiliar na biometria dos peixes.

O projeto lançou um curso, em 2019, na plataforma de cursos abertos Eskada da UEMA intitulado “Manejo e sanidade na produção de peixes e mariscos” com participação de mais 3.000 alunos de diferentes estados brasileiros e até outros países.

Da redação do Para Onde Ir com informações da UEMA 

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