O Diabo Veste Prada: reflexões sobre meritocracia

Análise do efeito da reexibição de O Diabo Veste Prada, na Globo e a interpretativa disparidade entre o filme e as redes sociais

A Rede Globo de Televisão exibiu semana passada, mais uma vez, a comédia dramática O Diabo Veste Prada. Apesar de ter sido produzido nos idos de 2006, agora, como em todas as outras vezes, a exibição foi sucesso de telespectadores, o que não foi difícil apurar em virtude da repercussão nas redes sociais.

O filme, do ponto de vista da arte cinematográfica, vale a pena sobretudo pelo desempenho de Meryl Streep, uma das mais premiadas atrizes de Hollywood, na atualidade, no papel da poderosa e implacável editora-chefe Miranda Priestly, da revista de moda Runway.

A seu serviço está a atriz Anne Hathaway, no papel da jornalista Andrea (Andy) Sachs, que pula de uma vida simples ao lado de seu namorado e de amigos de sempre para a do glamour incessante e da pressão desmedida do mundo da moda internacional.

Incialmente, um pouco refratária à mudança pessoal, aos poucos vai se adaptando às regras não escritas daquele mundo inteiramente novo para ela, mudando não só sua aparência, mas também sua atitude e comportamento.

Nessa pisada, consegue se adaptar ao ritmo alucinante impresso por Miranda, exercido por meio de ordens sucessivas e abalroantes, num rol de exigências que muito bem podem ser classificadas como de assédio moral em altíssimo grau, na ética de qualquer ambiente de trabalho contemporâneo.

Sacrifício pessoal

Em última análise, o filme expõe uma visão impactante da indústria da moda, principalmente, e do sacrifício pessoal que muitas vezes se faz necessário para alcançar o sucesso no universo corporativo, tanto nesse campo, como em qualquer outro.

É um lembrete importante de que a aparência pode ser enganadora e de que a realidade é perversa por trás do glamour, numa visão incisiva dos bastidores da indústria da moda e do poder e influência que essa indústria exerce.

No final da trama, cansada das intolerâncias ​​de Miranda Priestly, Andy decide abandonar aquele mundo de alta pressão para se entregar, novamente, à busca por uma carreira mais alinhada com suas aspirações originais de se tornar uma jornalista.

O final do filme intenta lembrar que é necessário encontrar um equilíbrio entre nossas aspirações profissionais e nossa saúde mental e bem-estar pessoal. Mas também sublinha a importância de manter a integridade e autenticidade em qualquer ambiente de trabalho.

Repercussão

A preocupação, porém, me transporta do filme em si para a sua repercussão no Twitter, por exemplo, onde um enorme contingente de pessoas, a maioria mulheres, ataca o namorado da personagem Andy, “incapaz de incentivar a vitória pessoal” da moça.

Tóxicos, por exemplo, segundo os comentários, são os amigos e amigas originais da jornalista, que ficam criticando nela a mudança de comportamento que havia alcançado em favor do convidativo universo fashion.

Errada foi ela ao abandonar as vitórias que conquistou, voltando à estaca zero: ‘mataria para ter a vida de Andy’. Ou: ‘o final certo a Andrea manda o namorado pra pqp e vira a nova Miranda’, assim, na lata.

A perigosa tese da meritocracia

Impressiona constatar em largas parcelas da classe média brasileira, na atualidade, o pensamento em prol da perigosíssima tese da meritocracia, o que parcialmente explica o sucesso que teses de extrema direita têm alcançado nessa faixa da população brasileira.

É de fazer chorar a ignorância sobre os perigos das teses meritocráticas, que não levam em consideração que as chances de sucesso ou insucesso acontecem normalmente em função de fatores como classe social, raça, gênero e localização geográfica.

São esses fatores que podem efetivamente limitar a capacidade de um indivíduo de acessar as oportunidades necessárias para demonstrar mérito, o que pode ampliar as desigualdades existentes.

Isso, sem falar nos sérios problemas de saúde mental, como estresse, ansiedade e depressão, especialmente relevante em ambientes de trabalho altamente competitivos, onde o sucesso é frequentemente medido em termos de produtividade e realizações.

Estava devendo a mim mesmo essa reflexão depois do que acompanhei no Twitter, durante e depois da exibição do filme pela Globo. O pior é que o filme em si não transmite, em seu final, nada parecido com a reação meritocrática nas redes, que, por conseguinte, vão além do fecho moral estabelecido pelo diretor.

Edição do Para Onde Ir: Sérgio Botêlho

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