
Sérgio Botelho – “Em tudo devemos competir com os homens – no governo da família, como na direção do estado. (…) O princípio da força é o homem, o da ordem é a mulher. (…) O homem é a negação da ordem (…)”.
A ousada declaração para a época é do editorial do jornal semanal A Família, em São Paulo, na sua primeira edição, em 1888, assinado por uma cidadã de nome Josefina Álvares de Azevedo.
O texto continuava: “E em abono desta opinião eu vos trarei um exemplo muito vulgar – o governo de uma casa. (…) ele não é capaz de governar uma casa, que se compõe de algumas pessoas”.
Ainda hoje uma declaração desse tipo se constitui numa ousadia enorme. Numa sociedade extremamente machista, como a oitocentista, era só o que faltava! As aspas estão em trabalho científico assinado pela pesquisadora Karine da Rocha Oliveira.
Para ser mais completo, no registro, o documento é parte do Programa Nacional de Apoio à Pesquisa, da Fundação Biblioteca Nacional, intitulado “Josefina Álvares de Azevedo: a voz feminina no século XIX através das páginas do jornal A Família”.
Josefina, de infância a adolescência na cidade do Recife, sempre se autodeclarou recifense (natural, para quem tinha uma relação tão fortemente afetiva com a cidade). A Karine, do trabalho científico a que nos referimos, defende a autodeclaração de recifense.
O Senado Federal, nas edições comentadas de A mulher moderna, livro de Josefina reeditado pela instituição, também defende que ela nasceu na capital pernambucana, assumindo, portanto, a informação da própria.
Contudo, em seu atestado de óbito, de 1 de setembro de 1913, documento geralmente baseado na Certidão de Nascimento, está assentado que ela nasceu na Paraíba, atual João Pessoa.
Josefina, que faleceu no Rio de Janeiro, foi jornalista, escritora, poeta, dramaturga e, sobretudo, figura central do feminismo do fim do século XIX no Brasil. O jornal A Família, sob sua direção, defendeu educação e o direito ao voto para mulheres.
Josefina Álvares de Azevedo abriu caminho num Brasil que mudava de regime e de linguagem política, fazendo do impresso e do palco instrumentos para discutir direitos. Colocou educação e voto feminino no centro do debate público.
Ela levou a discussão ao teatro. Em 26 de maio de 1890, estreou O voto feminino, no Teatro Recreio Dramático. A peça encenava argumentos e pedia ação legislativa. Depois, circulou em folhetins no próprio jornal.
Em 1891, reuniu artigos no livro A mulher moderna. O volume consolidou seu programa: instrução para mulheres, autonomia no trabalho, participação política. A reedição do Senado recolocou o livro em circulação.
Usou meios populares para uma pauta nova. Jornal, folhetim e comédia formaram um ecossistema de persuasão. Isso aproximou o sufrágio de leitoras e leitores comuns.
Criou repertório para gerações seguintes. Seus textos atravessaram o fim do século XIX e ajudaram a dar linguagem ao feminismo do início do XX. As edições atuais permitem estudar esse legado sem ruído.
Josefina é memória. Josefina é história.
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