
Sérgio Botelho – Em 1974, ano em que Campina Grande completava 110 anos de emancipação, o professor e crítico de Literatura, Virgínius Figueiredo da Gama e Melo proferiu conferência na cidade, abordando a história local. Virgínius, um pessoense, tinha a mãe, os avós maternos e tios, todos eles campinenses.
Logo nas primeiras linhas, escreveu: “Nos primeiros anos {da cidade} desponta a figura de João Vieira, conhecido popularmente como João Carga D’Água, uma liderança popular, quase lendária, uma figura estranha, bárbara e heroica, um líder do povo, um líder negro, um dos primeiros libertos”.
O documento foi encontrado nos arquivos da Fundação Casa de José Américo (FCJA) pela professora e membro da Academia Paraibana de Letras (APL), Neide Medeiros Santos. Ele foi incluído em uma plaquete e divulgado nesta quinta-feira, 31, no Pôr do Sol Literário da APL, e nesta sexta-feira, 01, em evento na FCJA.
Em meio aos parágrafos iniciais da conferência escrita, Virgínius tratou de relembrar a figura de Carga D’Água, destacando-lhe o perfil rebelde desde a resistência à escravidão, atitude que teve continuidade em sua vida de liberto, na condução de batalhas em favor das demandas do povo.
O apelido de João vinha de seu ofício de vender água na cidade, embora também atuasse como feirante. Foi nessa condição que viveu a chegada do sistema métrico decimal, implantado pelo Império do Brasil no ano de 1872, com a adoção das medidas do quilo, do metro, do litro, etc.
Desconfiados da novidade e diante da cobrança de impostos com base nas novas medidas, feirantes e agricultores campinenses, tendo João Carga D’Água como um dos principais líderes, reagiram, destruindo balanças, jogando as medidas no açude e iniciando uma revolta, que ficou conhecida como Quebra Quilos, que se espalhou pelo Nordeste.
Em Campina, o levante ganhou apoio de outras lideranças, como Neco de Barros e Alexandre de Viveiros. Em várias cidades paraibanas, e depois em localidades de Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte, feiras foram invadidas, cartórios incendiados, arquivos municipais destruídos e queimados.
A propaganda oral e os cordéis ajudaram a mobilizar o povo apelidado de “matutos”, que via nas medidas oficiais uma ameaça à tradição e à subsistência. A repressão imperial foi violenta. Tropas governamentais foram empregadas, em grande número, para sufocar a sedição.
A repressão utilizou os chamados “coletes de couro”, forma de tortura que quase asfixiava os detidos. Eles eram vestidos com esses coletes secos, que, depois de molhados, praticamente sufocavam a pessoa. Vários líderes foram presos ou fugiram, e muitos obrigados a recompor e indenizar os danos causados.
Dessa forma, João Carga D’Água tornou-se um dos símbolos da construção social e espiritual da cidade, virando, como disse Virgínius, uma figura quase lendária. Hoje, há uma estátua que lhe celebra a memória, às margens do Açude Velho, infelizmente sujeita, aqui e acolá, no tempo, às infelizes ações de vândalos.
