João Batista de Brito, Shakespeare e o cinema noir

Sérgio Botelho – Há um imperdível texto publicado nesta sexta-feira, 25, pelo crítico de literatura e cinema, João Batista de Brito, no Facebook, que o Para Onde Ir reproduz, sobre a adaptação de Macbeth para cinema noir (sobre cuja genética o autor aproveita para dar uma breve, mas esclarecedora aula), que revela mais do que um exercício de crítica cinematográfica ou um tributo a Shakespeare.

O autor parte de uma declarada relação afetiva com o famoso escritor e teatrólogo inglês para depois observar como a referida obra se deixa traduzir, ainda que com ruídos e perdas, para um universo moderno e decadente como o do film noir. Mas o que há de comum entre as tragédias shakespearianas e os becos escuros das metrópoles do século XX, cenários dominantes no gênero?

A resposta, talvez, esteja no próprio resumo feito ao final: “Num mundo mau, pessoas más, fazendo coisas más, e se dando mal.” Assim como Macbeth, os personagens noir são reféns de forças internas que os consomem, projetando sobre o mundo externo uma cadeia de violências inevitáveis.

A peça Macbeth, ao ser reinterpretada no noir, segundo aponta JBB, perde seus elementos sobrenaturais mais explícitos (as bruxas, os fantasmas, a floresta em movimento), ganhando algo mais dilacerante: a sensação de que o destino não é imposto por forças místicas, mas é gerado pelas próprias escolhas erradas do indivíduo em um mundo que não oferece redenção.

SHAKESPEARE NOIR

João Batista de Brito

Não nego: sou um shakespeariano de carteirinha, e vejo a arte do bardo de Stratford-upon-Avon metida em tudo. Quando, cursando mestrado em literatura anglo-americana (1977), escolhi trabalhar com o “Rei Lear” não foi por acaso. Em meu livro “Literatura no cinema” (São Paulo: Unimarco, 2006) boa parte dos ensaios é sobre adaptações cinematográficas das peças shakespearianas. E fora disso, já escrevi algumas dezenas de vezes sobre o dramaturgo inglês.

Além do mais, sou cinéfilo, e o cinema já filmou tudo o que Shakespeare escreveu, e isso, das mais variadas formas e enfoques. Até os “Sonetos” do bardo já foram filmados (Confiram: “Dialógos angelicais”, de Derek Jarman, 1985)

Pois acabo de me deparar com uma pequena surpresa, a saber, uma adaptação de Shakespeare para um gênero cinematográfico improvável – o noir.

Para quem não sabe, o noir é aquele tipo de filme policial dos anos 40/50, com características formais e temáticas bem delimitadas. Num cenário metropolitano noturno, histórias de crimes que envolvem gangsteres, mulheres fatais e detetives, tudo mostrado em ângulos inclinados, com muita sombra e ruídos estranhos. Filmes curtos e de orçamento baixo, para serem exibidos em dias de semana a um público cativo.

O filme que, no Youtube, acabo de ver já traz, no título, a indicação da peça adaptada: “Joe Macbeth” (Ken Hughes, 1955). A história se passa numa metrópole americana e o protagonista é um figurão de uma gangue poderosa, feito pelo ator então popular Paul Douglas. A esposa, Lilly Macbeth (como Lady Macbeth) sugere ao marido dar cabo do figurão maior que, sem coincidência, se chama Duncan (como o rei assassinado na peça). E, como na peça, uma série de crimes sangrentos se segue, cada um em decorrência do outro, até o chefão Joe Macbeth vir a ser a derradeira vítima do ciclo de cobiça e violência que ele mesmo acionou.

Achei o filme interessante, mas confesso, não tanto por suas qualidades, e sim pelo esforço feito no sentido de dar viabilidade a uma história antiga, toda atrelada a predições de bruxas que, em Shakespeare, parecem ser as autoras da fábula.

Como é sabido, “Macbeth” é a mais curta das peças shakespearianas e também, digamos assim, a mais amarrada: tudo o que acontece ao protagonista Macbeth, acontece rigorosamente a partir dos presságios das três bruxas. As interpretações que Macbeth faz dos presságios são erradas, mas eles, os presságios, estavam corretos. Para dar um só exemplo: “ninguém nascido de mulher matará Macbeth”, dizem as bruxas; ora, o seu algoz, Macduff – e Macbeth descobrirá isso tarde demais – não havia nascido de mulher, na medida em que o parto fora cesariano, com a mãe já morta.

No filme, uma florista inexpressiva substitui as três bruxas e mesmo assim sua única predição – a da morte de Duncan – não vai além disso, e é esquecida pelo espectador. Sem contar que uma das predições das bruxas seria tecnicamente inviável num filme urbano: como fazer uma floresta inteira se mover, da forma como, na peça, se move a floresta de Dunsinane? Enfim, o lado mais fantasmagórico da obra de Shakespeare fica arrefecido e, por exemplo, a terrível aparição, no banquete real, do fantasma de Banquo ensanguentado soa pouco convincente.

Sobre esse lado fantasmagórico da peça é interessante lembrar que Shakespeare a escreveu em torno de 1603, logo no começo do reinado de James I, rei que era – sim, isso mesmo! – um tremendo fanático por bruxaria. Nos anais da história original sobre a figura de Macbeth nunca houve quaisquer referências a bruxas, e no entanto, Shakespeare, no intuito de agradar um soberano que estava começando o seu reinado em solo inglês, não hesitou em inventar as três bruxas e lhes dar voz determinante no enredo, tornando-as, assim, donas da história narrada. Não admira que, com James I no poder, a Companhia de Teatro de Shakespeare (antes: “Lord Chamberlain´s Men”) tenha subido de grau, e ganhado o nome pomposo de “The King´s Men” (´Os homens do Rei`).

Enfim, disse acima que me surpreendi em ver um filme noir adaptando Shakespeare. Pensando melhor, acho que – à parte o insucesso do filme de Ken Hughes em recriar a peça – esses dois universos não são assim tão diferentes. Relembro minha própria conceituação do universo noir (que já deixei registrada em ensaios sobre este gênero cinematográfico!), e me dou conta de como ela também poderia valer para o universo das tragédias shakespearianas:

“Num mundo mau, pessoas más, fazendo coisas más, e se dando mal.”


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