Sérgio Botelho – O patriotismo sempre foi a bandeira de propaganda mais agitada pela extrema-direita brasileira. Durante anos, ela se apresentou no salão político como a guardiã dos valores patrióticos nacionais, procurando sinalizar contrariedade à uma suposta submissão a interesses estrangeiros. (Embora nunca tenham escondido, em tempo algum, uma preferência exagerada pelos interesses norte-americanos, que, por sinal, tiveram influência decisiva no golpe militar de 1964).
Agora, diante do recente tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump, o discurso patriótico foi abandonado. Em vez de defender o país, setores bolsonaristas, principais representantes da extrema-direita, entre nós, passaram a exigir que o Brasil cedesse às pressões de Washington, incluindo uma anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, envolvido em tentativa de golpe, após a derrota eleitoral em 2022, segundo a Polícia Federal.
Enquanto isso, a esquerda brasileira, historicamente acusada pela extrema-direita de não ser nacionalista o suficiente, está na linha de frente da defesa do Estado Democrático de Direito e dos interesses nacionais. Assim dispostas, esquerda, centro e centro-esquerda, no governo, se apoiam para proteger o Supremo Tribunal Federal, principal alvo dos ataques de Trump e da extrema-direita.
O perigo é claro. Se o Brasil ceder às exigências de Trump abrirá um precedente perigoso. A soberania não é negociável nem a democracia pode ser moeda de troca em acordos comerciais. A submissão à agenda da extrema-direita, escudada na pressão externa, seria um ato de traição àqueles que defendem o país, de verdade. Além do mais, segundo enxergam os principais analistas econômicos do Brasil e do exterior, os custos da submissão à pressão dos EUA, abalando perigosamente a confiança internacional, seriam desastrosos.
Em face desse cenário cabe à sociedade brasileira reafirmar, com serenidade e firmeza, sua confiança nas instituições que sustentam a República. A defesa do interesse nacional passa pela proteção da ordem democrática, pelo respeito aos poderes constituídos e pelo compromisso com uma política externa que não troque conquistas históricas por vantagens ilusórias.
Nesse momento, bem claramente, preservar a soberania significa fortalecer os mecanismos de fiscalização, garantir a independência do Supremo Tribunal Federal e sustentar uma política econômica guiada pela diversificação de parcerias. Afinal de contas, o verdadeiro patriotismo se prova no compromisso com a democracia e na recusa a qualquer tutela que subestime nossa capacidade de decidir nosso próprio destino.

