Conhecimento indígena abre espaço na revista Frontiers

Como o conhecimento indígena encontra meios de preservar suas florestas no contexto da emergência climática e do desmatamento?

Como os indígenas do Xingu têm encontrado maneiras de preservar suas florestas no contexto da emergência climática e avanço do desmatamento? Artigo publicado na revista científica Frontiers busca responder essa pergunta, trazendo resultados de uma pesquisa feita junto aos povos do Território Indígena do Xingu (TIX), no Mato Grosso. Frente a um ambiente em constante mudança, cada vez mais degradado, os indígenas desenvolveram alternativas de manejo para conservar seu território.

Ancião e agricultor experiente, Amputxa Ikpeng, da aldeia Moygu, se preocupa com o futuro do Xingu: “Eu não sei o que fazer ou para onde mudar, nem sei onde fazer a minha roça, entendeu?”.

O artigo foi baseado nos conhecimentos sobre sucessão florestal dos povos Kawaiwete e Ikpeng e contou com a autoria de Yakuna Ullillo Ikpeng e Tariaiup Kayabi, pesquisadores indígenas do Xingu, além de Marcus Schmidt, Rosely Sanches, Kátia Ono e Cristina Adams.  [Acesse o artigo “Indigenous knowledge and forest succession management in the Brazilian Amazon: Contributions to reforestation of degraded areas“]

Com o apoio das comunidades e das lideranças, os pesquisadores buscaram aprofundar algumas questões sobre a resiliência desses sistemas no passado, as mudanças em curso, e como o manejo e os conhecimentos Kawaiwete e Ikpeng podem ser aplicados no sentido de evitar a degradação e, ao mesmo tempo, acelerar processos de regeneração florestal.

“Este estudo contribui para o reconhecimento da importância dos conhecimentos de povos indígenas em projetos que visam implementar ações para a regeneração das florestas”, explicou Marcus Schmidt, um dos autores. “A regeneração natural é uma importante aliada, pois depende de mecanismos que são particulares à própria capacidade de crescimento e recuperação do sistema ecológico florestal”.

Transformações no território

Os povos indígenas do Xingu estão passando por transformações em seus sistemas produtivos, que trazem impactos na sua forma de viver no território. Por exemplo, as aldeias antigamente mudavam de lugar com maior frequência no território, evitando assim a utilização das terras agrícolas e das florestas além dos limites de recuperação. Hoje, com a limitação do território e o esgotamento de áreas agricultáveis, esse movimento fica restrito, e os indígenas têm buscado maneiras de adaptação.

Durante a pesquisa, Tuiat Kawaiwete, líder espiritual e chefe da aldeia Kwaruja, contou que antigamente cada período tinha a sua própria época: o tempo de limpar e o tempo de queimar as roças, mas que hoje isso mudou. Para ele, as mudanças no território estão sendo provocadas por um desequilíbrio entre os “criadores do mundo” e pelo desmatamento na região do entorno do TIX.

Além das mudanças internas que são características da realidade local, a região das cabeceiras da bacia do rio Xingu também perdeu mais de 60% da cobertura florestal original nas últimas três décadas, resultado da expansão da exploração de madeira, pecuária e lavoura mecanizada na região. Isto tem provocado mudanças no clima local com alterações na umidade do ar e no regime de chuvas, levando a um aumento do número e a frequência de incêndios no Xingu. [Saiba mais]

No estudo, Makawa Ikpeng, chefe do grupo das mulheres coletoras de sementes, as – Yarang, demonstrou, já em 2015, preocupação sobre a dificuldade de encontrar certos tipos de árvores úteis nas áreas próximas de casa, por conta dos incêndios nas florestas da região da aldeia Moygu.

“A culpa é dos incêndios descontrolados que destroem a floresta e as árvores de usos importantes para nós”, reconheceu Kampot Ikpeng, a principal liderança da mesma aldeia Moygu, no TIX. Awato Ikpeng, liderança e chefe dos trabalhadores na aldeia, lembrou que sempre recomendava aos moradores para ter cuidado com o fogo e para evitar abrir muitas roças todos os anos. ”A floresta perto da aldeia foi acabando e a terra de mandioca também terminou”, contou.

Para o agricultor e líder espiritual, Purat Ikpeng, da aldeia Moygu, a forma de limpeza das roças, selecionando as plantas úteis, poderia ser uma boa estratégia de adaptação às mudanças para permitir a recuperação mais rápida das capoeiras. Além de úteis, estas plantas apresentam funções ecológicas importantes para o desenvolvimento das florestas secundárias e na atração de animais dispersores de sementes.

Os resultados do projeto* apontam para os conhecimentos indígenas como importantes para a implementação de ações para evitar a degradação das terras agrícolas no TIX ou restaurar terras que já estejam degradadas. Estratégias baseadas em modelos de regeneração natural assistida (ANR) podem aportar importantes subsídios, pois estes dialogam com as práticas de manejo local.

[Saiba mais sobre os processos de adaptação dos indígenas do Xingu]

Da redação do Para Onde Ir com informações portal Socioambiental 

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