Cidade Velha, por Pié Farias

Para Onde Ir (Sérgio Botelho) – O poema Cidade Velha, da arquiteta, restauradora, pintora e poeta Pié Farias é uma elegia emocionante e profunda que evoca a beleza e o espírito de um centro histórico. As portas e janelas são metáforas para o tempo e suas transformações. Ela reflete sobre como o tempo altera os espaços e as experiências humanas, deixando para trás muitos dos vestígios de um passado que só pode ser revisitado na imaginação.

Cidade Velha

(À cidade de João Pessoa que um dia voltará a se chamar Parahyba)

Pié Farias

Portas, janelas

Da cidade velha

Enfileiradas…

 

Portas do tempo

Das gameleiras

Bondes, ruelas

Becos, ladeiras

Rios e matas.

Portas dos templos

Portas das casas…

 

Portas dos tempos

Das ceias fartas

Portas que se abrem

Para as calçadas

Onde as cadeiras

Se amontoavam

Para uma prosa…

 

Portas das ruas

De linhas tortas

Rua Direita,

Ladeira do Rosário,

Rua Nova,

Das Convertidas

E da Areia.

 

Portas, janelas

Com suas bandeiras

Meio-góticas,

Arredondadas,

Tuas sacadas

Lembram moças

Debruçadas….

 

Hoje, inda belas

Portas, janelas

De uma beleza

Triste, amarga…

Assim, fechadas

Quase vazias

E abandonadas…

 

Se eu não tivesse

Perdido o sonho

Perdido a alma

Imaginava-as

Portas, janelas

Todas soberbas

Todas abertas…

 

… Imaginava

Música, piano

Festas e valsas…

… Imaginava

Fitas e laços

Em suas cortinas

Tão delicadas…

 

Quem dera, o tempo

Que ainda esperas

Portas, janelas

Traga bons ventos

Devolva-lhes a graça

E o encantamento

Que esbanjavas…

 

Portas, janelas

Da cidade velha

Enfileiradas.


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