Biógrafos e biografias, por Hildeberto Barbosa Filho

Sérgio Botelho – Com sua escrita elegante, mas acessível, o acadêmico Hildeberto Barbosa Filho nos oferece uma reflexão clara e instigante sobre o gênero biográfico na literatura, em texto publicado em A União, neste domingo, 13, e reproduzido no espaço Letra Lúdica, no Facebook, nesta segunda-feira, 14.

A partir do comentário do também acadêmico professor João Trindade, que expressa sua admiração por biografias e por nomes como Magalhães Júnior e Ruy Castro, Hildeberto costura uma análise comparativa entre dois estilos distintos de fazer biografia: um mais tradicional e acadêmico, centrado na pesquisa rigorosa e no encadeamento cronológico, representado por Magalhães Júnior; e outro mais literário e jornalístico, fluido e reflexivo, como é o de Ruy Castro.

Com esse contraste, o autor não apenas reconhece o valor de ambos os estilos, mas amplia a visão sobre o gênero, ressaltando a riqueza que há tanto na fidelidade documental quanto na leveza narrativa. Ele também enriquece o texto ao mencionar outros biógrafos contemporâneos, mostrando a vitalidade do gênero no Brasil atual.

O texto de Hildeberto é um convite ao leitor a mergulhar no universo das biografias, entendendo-as não apenas como relatos de vidas, mas como construções literárias e culturais de grande valor.

É uma leitura clara, prazerosa e enriquecedora.

Letra Lúdica

Hildeberto Barbosa Filho

Biógrafos e biografias 

Comentando um de meus textos, publicado no Facebook, o professor João Trindade, ilustre confrade da APL – Academia Paraibana de Letras, diz ser um leitor apaixonado por biografias, citando, na ocasião, dois pesos pesados do gênero, de sua admiração e preferência: Raimundo Magalhães Júnior e Ruy Castro.

Referiu, sim, dois nomes relevantes na tradição biográfica brasileira, hoje bafejada pelo brilho cativante de alguns excelentes  biógrafos, a exemplo, entre outros, de um Lira Neto, de um Fernando de Morais, de um  José Castello, de um Jason Tercio, de um Daniel Pizza, de um Ivan Marques, de uma Karla Monteiro e de uma Lília Moritz Schwarcz.

Um, de feição mais conservadora, atento aos dispositivos da ciência histórica e centrado numa metodologia factual e cronológica em que o esforço da pesquisa e o auxílio de farta documentação não elidem, no entanto, a fluência do estilo e a configuração de uma biografia sóbria, elegante e persuasiva.

Outro, por sua vez, fundado, em especial, na habilidade do jornalista, diria também, do escritor, se atém a uma escrita mais fluida, calcada numa consciência autocrítica face à complexidade do gênero, sem dirimir, contudo, o pressuposto da possível verdade que deve reger a elaboração do discurso biográfico.

De um lado, o grande e fecundo Raimundo Magalhães Júnior; do outro, o talentoso e criativo Ruy Castro. Ambos, a partir de seus respectivos modelos e ao sabor de suas inclinações estilísticas e substanciais, reúnem um legado dos mais ricos e necessários ao acervo da literatura e da cultura brasileiras.

Raimundo Magalhães Júnior escreveu algumas das biografias fundamentais, se pensarmos principalmente em certas personalidades do mundo literário que lhe mereceram a devida atenção de estudioso arguto e incansável. Casimiro de Abreu, José de Alencar, Olavo Bilac, Augusto Dos Anjos são, entre outros, vozes literárias por ele biografadas. Isto, sem falar da monumental biografia de Machado de Assis, distribuída em cinco volumes  assim intitulados: Aprendizado, Ascensão, Maturidade, Apogeu e Machado desconhecido.

Ruy Castro, a seu turno e talvez em torno de um espectro cultural mais amplo, volta-se para a gente da literatura, a exemplo da biografia que escreveu sobre Nelson Rodrigues, O anjo pornografico, como também para alguns notáveis de outras áreas e para certos fenômenos de outras esferas sociais, como Carmen Miranda, Garrincha, a cidade do Rio de Janeiro e a música popular brasileira.

Acerca de Raimundo Magalhães Júnior há um livro curioso e imprescindível, que lhe traça o perfil, focalizando a vida e a obra deste homem que se consolidou como uma das fontes e das referências mais seguras no âmbito dos estudos literários brasileiros. Escrito pela historiadora Mariza Guerra de Andrade e publicado pela editora Autêntica, o livro se intitula Anel encarnado: biografia & história em Raimundo Magalhães Júnior.

Se não existe algo no gênero sobre Ruy Castro, de sua própria lavra está aí, no mercado editorial, pela Companhia das Letras, o precioso A vida por escrito: Ciência e arte da biografia. Aqui, o autor de Bilac vê estrelas, se não faz biografia, reflete criticamente sobre o gênero, num exercício de meditação metalinguística dos mais frutíferos, sobretudo, para aqueles que, como o querido e inquieto professor João Trindade, amam as biografias.

(Texto publicado ontem, 13/04/25) em A União)


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