Sérgio Botelho – O Para Onde Ir publica mais um poema do acadêmico Hildeberto Barbosa Filho, poeta, escritor, professor universitário aposentado e crítico de Literatura. Em “A que comigo quer partir”, ele procura expressar a jornada humana em busca de autenticidade, significado e liberdade, explorando essas questões não apenas pelo seu conteúdo, mas também por meio de sua forma e estrutura poéticas.
Na sequência, a poesia de Hildeberto:
A que comigo quer partir
Sou
simplesmente
um poema.
Não sou negro,
não sou pardo
não sou branco.
Só uma cor me pinta,
a do desvario,
aquela que as palavras
vestem,
quando a desorganização
das coisas
dá sua ordem de comando.
Não sou cigano,
não sou índio,
não sou mulher,
não tenho necessidades
especiais.
Se há, no meu corpo,
alguma dislexia,
é porque as palavras
são difíceis.
(Lidar com palavras
é a luta mais vã, disse
Drummond.)
Sou
simplesmente
um poema.
Não
sou qualquer
um.
Dispenso cotas,
são outras as minhas
culpas,
outros, os meus
remorsos.
Convivo bem
com toda solidão.
O desespero
me dá a melhor
metáfora.
Não tenho chão,
não tenho pátria,
não tenho nenhuma
saída.
Sou meio autista,
vejo esferas iluminadas,
estou mais próximo
de Deus.
Tenho muitos toques
compulsivos,
sofro de depressão,
melancolia aguda,
sou meio bipolar
como qualquer um.
Como qualquer um,
adoraria enlouquecer
e tocar
fogo na cidade,
passar por cima de tudo
como um tornado
no Alabama.
Não só desejo
amar a mulher do próximo,
quero também
matar o meu vizinho.
Sou
simplesmente
um poema.
Não defendo nada.
Ideias, ideologias,
verdades,
nada disto faz parte
de mim.
Sou
simplesmente
um poema.
Vivo do que há
de mais livre e belo,
o amor
entre as palavras.
Sou
como a música
de Bach ou de Beethoven,
de Noel ou de Caymmi,
que toca o coração
das coisas.
Sou,
como poema
que sou,
aquela que me olha,
com ternura e piedade,
e que comigo
quer partir.
Hildeberto Barbosa Filho
11.12.2023
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