
Sérgio Botelho – Em um dos episódios mais marcantes da história do Brasil, ocorrido em 5 de julho de 1922, a Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, tornou-se palco de um gesto dramático que marcaria a história do tenentismo, um movimento que desaguou na chamada Revolução de 1930.
Naquele dia, um grupo de militares — inconformados com o domínio das oligarquias de São Paulo e Minas sobre a política da Primeira República e indignados com supostos insultos do presidente-eleito, o mineiro Artur Bernardes, ao Exército (embora cabalmente desmentidos, depois), decidiu enfrentar o governo do paraibano Epitácio Pessoa.
Inicialmente eram cerca de trezentos homens, mas o cerco de tropas leais e o bombardeio naval reduziram rapidamente os dispostos a resistir. Ao fim da tarde restavam apenas dezoito: dezessete militares e um civil. Eles saíram marchando pela Avenida Atlântica, fardados e de rifles em punho, conscientes de que caminhavam para a morte ou para a prisão.
O combate que se seguiu foi curto e desigual; dezesseis rebeldes tombaram antes de chegar à esquina da atual Avenida Princesa Isabel, e os dois sobreviventes, tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes, foram capturados, ambos feridos. Do ponto de vista militar, a revolta fracassou. Essa é a história que se sabe.
Contudo, do Forte de Copacabana saíram inicialmente 29 combatentes, que foram sendo feridos e presos, até sobrarem os 18 últimos, que passaram a protagonizar a história. Entre os sobreviventes da destemida atitude, estava não um civil, mas dois, o que inclui um paraibano (o segundo nessa história) que viveu modestamente o resto de sua vida, chamado João Anastácio Falcão de Melo, após escapar do tiroteio.
Como isso aconteceu, é o que vamos saber em uma longa entrevista concedida, por ele mesmo, em 1931, ao jornal A Noite, do Rio de Janeiro, onde acabou trabalhando como assistente de motorista. Uma história que dá um filme, e que teve início em Teixeira-PB, onde nasceu.
João Anastácio Falcão de Melo era um ex-soldado que, então, como funcionário civil da Intendência de Guerra, se encontrava no Forte de Copacabana em 5 de julho de 1922. Lá decidiu aderir espontaneamente ao levante tenentista. Na manhã daquele dia, quando apenas 29 revoltosos decidiram, acompanhou-os na célebre marcha pela Avenida Atlântica. Exaurida a munição, continuou a avançar, sangrando na perna, até ser dominado pelos legalistas
Na sequência, a entrevista, que reproduzo no português da época:
“Nasci em Teixeira, para os lados de Immaculada, no sertão da Parahyba. Cresci entre vaqueiros e fiz-me vaqueiro também. Lidando com o gado e amansando potros selvagens, trabalhei em muitas fazendas. Aquilo, porém, não era vida para mim. Eu ambicionava correr por esse mundão de Deus. Não gostava do modorra do sertão. Um dia, em Campina Grande, passou um contingente de tropas commandadas pelo capitão Narciso, que andava em perseguição de cangaceiros. Alistei-me. Porque conhecesse, pallmo a pallmo, toda a região infestada fui escolhido para guia. Três mezes andei assim. Um dia, porém, o capitão, por maldade, resolveu prender um companheiro. Damnei com aquillo. E revoltei o tropa. O resultado foi chegar reforço e todos nós seguimos presos para Recife. De lá, veio o contingente para Recife. De lá, veio o contingente para o Rio. Era em 1907. Fiquei agregado no 10º R. I., em Deodoro, passando, depois, para o 2º R. I., na Villa Militar. Em 1910 dei baixa e fui ser servente no Palácio do Catete, no governo do Marechal Hermes.
Ainda consegui um emprego no Telégrapho, de onde, sem nenhum motivo razoável, fui despedido seis mezes depois. Andei muito tempo batendo pernas e soffrendo privações. Conheci, então, Leonidas Fonseca Hermes. Contei-lhe minha história. Condoeu-se e me deu um emprego na Intendência da Guerra onde servi até 1º de julho de 1922.
Reconstituindo a epopeia
Lá na Intendência, muito às escondidas, falava-se em revolução. Alguns officiaes do forte Copacabana conspiravam. Era tudo gente boa. Eu soube disso. Metti a viola no saco e simulei não saber coisa nenhuma. Não obstante fui convidado reservadamente. Abandonei a repartição e, no dia 3, tomei destino. No forte, a primeira pessoa que encontrei foi o tenente Newton Prado. Cabeceei valente, àquelle! Pedi-lhe para falar ao comandante. Fez-se desentendido. Dissimulou. Porque ignorava que eu sabia tudo. Depois que entrei no assumpto, deixou-me passar. Apresentei-me e pedi fardamento e armas.
Attendido, peguei num fuzil e trepei na cúpula do Forte. Tomava a meu cuidado a vigilância noturna, dirigindo alguns companheiros em cujo ânimo não confiei. Porque todos estavam receiosos. Desanimados. Sem coragem. Vi aquilo e “assumptei” commigo mesmo:
— “Estamos perdidos por falta de homens.”
Calei a boca e deixei correr o marfim. Na hora em que Santa Cruz disparou contra o Forte, tomei conta do pessoal, disposto a ver quem era homem de facto. Que pandemônio, moço. A granada roncava. E a rapaziada, assustada, estirava-se no chão, sem um arranhão na pelle. Alguns eu mandei para a enfermaria. Sargentos, cabos, soldados, tinham vontade era de cair no mundo. Até um tenente sumiu. Vendo que a coisa assim acabaria em droga, desci da cúpula e pedi ao tenente Sílvio que avisasse Siqueira Campos do que havia e que mandasse Santa Cruz parar. Do contrário, iria morrer muita gente. Tomei, então, o commando da cúpula. Demos dois disparos e Santa Cruz içou bandeira branca. Houve calma. Fiquei mais sossegado com o pessoal e fui dizer ao comandante que aquela gente não me servia para nada. De repente, passa por cima um avião. Houve quem quisesse alvejá-lo. Siqueira Campos não consentiu.
— Ele vai largar granada — avisei.
Siqueira Campos discordou, dizendo que o avião vinha parlamentar. Logo depois a bomba caiu. Não acertou o alvo, perdendo-se por trás do forte. Vendo que urgia tomar uma altitude, Siqueira Campos, que não queria sacrificar vidas inocentes, com o arrasamento da cidade, mandou reunir a guarnição. Havia mais de trezentos homens. Diante da tropa, perfeitamente senhor de si, o grande homem falou:
— Vamos combater na rua. Vamos para morrer?
Passou-se, então, uma cena emocionante. Havia quem chorasse. Alguns rapazes alegaram que tinham pai e mãe. Outros, muito impressionados, não queriam se meter na briga.
Depois de bem municiados, dispostos a tudo, abandonamos o forte. Quando íamos saindo, encontramos um paisano. Era o Dr. Octavio Corrêa. Pediu armas. Queria também morrer pela nossa causa. Foi ao Corpo da Guarda e, momentos depois, se incorporava.
Fóra, andamos pela praia até as imediações da praça Serzedello Corrêa. Numa casa de família, pedimos água. Atenderam. E vi então, muitas senhoras com olhos cheios de lágrimas. Pediam que recuássemos. Falaram em nossas mães, esposas, filhos. Por que iríamos nós morrer quando a vida poderia ser poupada? Aquilo comovia. Era uma tentação. Mas, a ordem de avançar galvanizou-nos outra vez. Logo adiante avistamos forças do Exército. Gente como cisco. Paramos. E ouvimos uma intimação:
— Rendam-se!
Recusamos. O inimigo hesita. Vimos claramente que não nos queria matar. Enquanto isso, entendemo-nos em linha e fizemos uma descarga. Depois, seu moço, houve o diabo. Era tiro que nunca mais se acabava. Alguns dos nossos, contorciam-se pelo chão. Fizemos outra descarga. Aí é que a coisa ficou preta. Vi na minha frente uma porção de soldados fazendo mira. E um official gritou tão alto que todos nós escutamos:
— Fogo!
Siqueira Campos falou qualquer coisa que não entendi. As balas faziam uma barulheira danada. O fogo era cerrado. Eu não sabia a quantas andava. Via gente no chão e não conheci senão o cabo Reis que tinha cinco balas no braço. De repente, senti um frio na perna. Não liguei. Porque agora o inimigo avançava de baioneta calada. Fui envolvido e depois não sei mais o que se passou naquela hora. Só me lembro que, minutos depois, não havia mais barulho e que eu estava no meio de um pelotão, dentro do Túnel Velho. Um capitão, apontando-me os feridos que chegavam em padiolas, disse-me:
— Vê, bandido, o que vocês fizeram…
Senti o sangue ferver. E desobedeci.
— Segura este caboclo que ele é valente mesmo — ordenou o capitão.
— Não o matem.
— Estou aqui para morrer — respondi.
Levaram-me. Mas adiante uma família estrangeira pediu à escolta que parasse. Queria me ver. E disse:
— Um homem desses não se mata.
— Temos ordem para não matar — informou o official.
Intimou-me, com arrogância, a levantar os braços.
Tomamos rumo. E durante três meses não vi a luz do sol.
O pão que o Diabo amassou.
— “Depois de noventa dias incomunicável, fui levado à presença do Dr. Geminiano da Franca. Ele queria que eu dissesse quem dava os tiros no Forte. Respondi que não sabia disso. Era de infantaria. Sabendo que eu era parahybano, disse-me que eu, conterrâneo do presidente Epitácio, poderia arranjar um bom emprego.”
Com o mau humor de quem só comera um pãozinho de cem réis, respondi:
— O presidente nem sabe que eu existo!
Não gostou. Despediu-me secamente e fui levado para a 4ª delegacia auxiliar. Vi lá alguns jornalistas. Eu tinha uma fome canina. E eles repartiam comigo o que comiam. Quatro meses depois, recolheram-me à Detenção. Um paraíso. Lá, fiz camaradagem com o “Chula”, um revoltoso da Marinha. Era analfabeto e, por isso, ele escrevia cartas para mim.
Um dia fui solto por engano. Caí no mundo. Bati à porta de alguns conhecidos para arranjar recursos e dar o fora daqui. Só me davam conselhos. Queriam que eu me entregasse. Não gostei. Fui à Escola do Estado Maior e procurei por Siqueira Campos. Responderam-me que não estava e fecharam-se em copas. Poucos dias depois, fui preso pelo capitão Machado. Correu o processo. Só consegui ser solto porque o capitão Euclídes respondeu por mim. Arranjei o emprego na A NOITE e só saí daqui porque a vitoria de outubro me restituiu o emprego na Intendência da Guerra.”
O impacto político foi imenso: a imagem desses “dezoito do Forte” avançando em fileira dupla contra metralhadoras tornou-se símbolo de coragem moral e de repúdio à corrupção eleitoral, ecoando por quartéis de todo o país. A partir de então, o tenentismo — movimento de oficiais de baixa e média patente que defendia reformas como voto secreto, ensino público laico e fim das fraudes — ganhou fôlego, gerando novas rebeliões em São Paulo (1924) e, depois, a Coluna Prestes.
Para o governo, o episódio revelou o avanço do desgaste sobre o sistema oligárquico. Embora o presidente tenha contido a rebelião, não conseguiu conter a narrativa de sacrifício que corroía a legitimidade da Velha República. Assim, aquela marcha de menos de dois quilômetros transformou-se num clarim que, oito anos depois, soaria mais alto na Revolução de 1930, abrindo caminho para Getúlio Vargas e para um novo ciclo político no Brasil.
Discover more from Parahyba e Suas Histórias
Subscribe to get the latest posts sent to your email.

