Santa Rita de Cássia: a vítima de violência doméstica que se tornou a santa das ‘causas impossíveis’
Santa Rita de Cássia, italiana que viveu entre 1381 e 1457, é extremamente popular entre devotos brasileiros. “A fama dos inúmeros milagres foi se divulgando e, certamente, chegou ao Brasil com os colonizadores que trouxeram para a nova terra o catolicismo”, acrescenta o hagiólogo José Luís Lira, fundador da Academia Brasileira de Hagiologia e professor da Universidade Estadual Vale do Aracaú, do Ceará.
Para o estudioso de hagiografias Thiago Maerki, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e associado da Hagiography Society, dos Estados Unidos, a fama de Rita como santa “das causas impossíveis” contribuiu para “criar uma tradição” em torno dela.
Ela nasceu na cidade italiana de Roccaporena, uma espécie de vila localizada a 5 km de Cássia, em 1381, e morreu no dia 22 de maio de 1457.
De acordo com o livro Santa Rita de Cássia, escrito por Luís de Marchi, a “antiga tradição” enfatiza que ela foi batizada em Cássia “porque a povoaçãozinha de Roccaporena só em 1720 possuiu fontes batismais”. Seu nome original era Margherita Lotti.
Seus detalhes biográficos são poucos e inconsistentes, variando de fonte a fonte. Muitos dizem que ela era filha de juiz de paz, mas que sua família era bastante simples e que ela precisava ajudar os pais na lida diária, principalmente cultivando alimentos para subsistência.
Também há registros de que os pais já tinham idade avançada quando ela nasceu, e que ela teria sido filha única.
Contra a sua vontade, seu pai lhe arranjou um casamento. Marchi aponta que isso pode ter ocorrido quando ela tinha apenas 12 anos, embora alguns “biógrafos antigos” também falem em 18 anos.
Do casamento, nasceram dois filhos gêmeos. Mas a maior dificuldade da jovem moça não era cuidar das crianças, mas sim aturar a constante ira do marido.
“Rita, ao que consta, não queria casar, mas, seguir a vida religiosa. Por atender à vontade de seu pai, casou. E casou com um homem violento”, pontua Lira.
“O marido de Rita tinha inimigos por causa de seu caráter violento; era ofendido e procurava vingar-se. Quando não podia alcançar seu objetivo, desabava em casa a tempestade, e sua pobre esposa, tímida e inocente, devia suportar as consequências”, diz o livro de Marchi.
“Havia então cenas violentas e brutais. Excitado pelo vinho e pela cólera, Paulo se deixava levar por raivas loucas, quebrando tudo o que lhe caía nas mãos ou lhe oferecia resistência, apostrofando ou blasfemando ignominiosamente, fazendo assim estremecer de horror e desespero a pobre Rita.”
Em meio a essas desavenças com outras pessoas do povoado, o marido de Rita acabou assassinado
“Seus filhos queriam vingar a morte do pai”, conta Maerki
“Mas ela sempre foi uma mulher de muita oração e rezava a Deus para que isso não ocorresse, para que os filhos não cometessem aquele pecado. Ela dizia preferir que os filhos morressem a matar alguém.
O pesquisador ressalta que é importante situar a santa como “uma mulher casada”, pois isso faz dela alguém diferente em um contexto em que geralmente as religiosas celibatárias acabam sendo, com mais frequência, canonizadas.
Os filhos de Rita acabaram morrendo ainda jovens. Algumas fontes dizem que tiveram hanseníase. Outros registros apontam para peste bubônica.
O fim da vida em um convento
Viúva e sozinha, ela se viu empenhada em realizar o sonho da infância e, finalmente, abraçara a vida religiosa.
A entrada de Santa Rita de Cássia no convento não teve nada de amigável. Pelo fato de ela ser viúva e mãe, não poderia ser admitida em ordens religiosas da época. Ela chegou a tentar três vezes antes de conseguir a entrada.
O hagiólogo Lira conta que, pela tradição e pelos relatos antigos, ela teria sonhado com o convento fechado. Então, apareciam a ela Santo Agostinho, São Nicolau e São João Batista — e estes a fizeram entrar na casa religiosa.
Os três santos teriam pedido que ela os seguisse pelas ruas. Depois de andanças, eles desapareceram e ela sentiu um empurrão. Quando despertou, estava dentro do mosteiro, mesmo que ele estivesse com os portões cerrados. Teria sido desta forma que acabou aceita pelas outras religiosas agostinianas.
“[Foi] uma mulher cativante e de uma fé inabalável”, ressalta J. Alves. “Além de seu tempo. Embora tenha vivido e morrido antes da descoberta do Brasil, ela se tornou uma das mais populares santas veneradas por aqui.”
“Após a morte de Rita, 43 anos antes da descoberta do Brasil, houve grande popularização de sua devoção na região onde ela viveu. Embora sua beatificação tenha ocorrido 180 anos depois, sua santidade já era notada e percebida”, afirma Lira.
“Os santos possuem uma característica que se aproximam de cada um de nós, nas necessidades que viveram quando estavam na Terra. Não se pode negar que Santa Rita teve uma vida difícil e que sua fé a tudo superou.”
Para o hagiólogo, isto fez dela “um modelo” e a transformou em “uma intercessora para todos nós, em nossas dificuldades”.
“Assim ela foi se tornando popular, devocionada e amada em todo o Brasil, a ponto de que haja no Rio Grande do Norte a maior estátua a ela dedicada no mundo”, enfatiza.
“Ela sofreu, mas não desistiu de seu amor a Deus”, comenta Lira.
FONTES:
Por Sérgio Botêlho, na edição dos Destaques do Dia do Para Onde Ir
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