Retratos de família
No texto “Convivência Crítica”, Hildeberto Barbosa Filho nos oferece entusiasmada e sensível apreciação da obra Retratos de família, de Francisco de Assis Barbosa. O autor descreve o livro como “muito especial e muito saboroso”, destacando a leveza com que Barbosa traça perfis íntimos e reveladores de figuras notáveis da cultura brasileira. É um texto que educa pela admiração e encanta pela elegância. Ao mesmo tempo que analisa a obra, também presta homenagem ao autor e à tradição dos grandes perfis literários do país. Um convite irrecusável à leitura — feito por quem claramente sabe reconhecer e valorizar um “livrinho muito especial”.
Convivência Crítica
Hildeberto Barbosa Filho
Um livrinho muito especial!
Retratos de família, de Francisco de Assis Barbosa, é um livrinho muito especial e muito saboroso. Sua primeira edição é de 1956. Possuo a segunda, publicada pela José Olympio Editora, em 1968, revista e acrescida de três novos capítulos.
Trata-se de obra que oscila entre a literatura e o jornalismo, fundindo, fosse me valer de alguns quesitos da retórica, capacidade de pesquisa, senso de organização e criatividade.
O gênero me parece híbrido na maneira como tende a contemplar e descrever o objeto de investigação selecionado. Jornalismo literário ou literatura jornalística, por assim dizer.
Retratos de família, como o título deixa entrever, constitui uma série de pequenos perfis sobre personalidades importantes da cultura brasileira. Notadamente da história, da política, da medicina, da filosofia, da ciência e da literatura.
O foco se centra na intimidade, no ambiente doméstico, na rotina diária dos afazeres, sem escamotear, contudo, aspectos essenciais das ações e obras que os distinguiram ao longo tempo.
Os retratos são moldados a partir de informações e do auxílio dos familiares, esposa, filhos e irmãos, filtrados, no entanto, pelo olhar do repórter-escritor ou do escritor-repórter, num salutar exercício que mescla elementos da história oral com ingredientes do discurso biográfico. Segundo Josué Montello, em lúcido prefácio, com tal método, em tudo singular, o autor “não desfigurou as personagens, antes as realçou com o retoque de uma luz generosa”.
Os perfilados são: Rodrigues Alves, Miguel Pereira, Rui Barbosa, Osvaldo Cruz, José Mariano, Miguel Couto, Silvio Romero, Joaquim Nabuco, Alphonsus de Guimaraens, Lafayete Rodrigues Pereira, Inglês de Souza, Farias Brito, Clóvis Bevilacqua, Mário de Andrade, E. Roquette-Pinto e Artur Azevedo.
Ouvindo suas fontes, em certo sentido privilegiadas, mesmo que possa o leitor suspeitar de sua parcialidade devido aos fortes vínculos afetivos entre fonte e perfilado, Francisco de Assis Barbosa traça uma curiosa e reveladora fotografia de cada um deles, trazendo, à tona, pormenores, episódios e situações decisivos em suas respectivas vidas.
O apego aos livros em Rui Barbosa, o pensamento jurídico de Clóvis Bevilacqua, o amor à poesia em Alphonsus de Guimaraens, a verve crítica em Sílvio Romero, a dedicação a uma medicina humanitária em Miguel Pereira, por exemplo, se associam a minudentes detalhes de suas existências íntimas e caseiras.
Os perfis como que são elaborados para prefigurar, em close, o homem de carne e osso, o homem comum, quotidiano e tributável, na voz do poeta, mais que o mito definido pela grandeza de sua imagem pública.
Insisto: livrinho muito especial e muito saboroso! Escrito com leveza, cheio de surpreendentes revelações, livrinho que educa e deleita. Livrinho que se lê e reler com prazer sempre renovado. Livrinho que enriquece a tradição especial daqueles que falam de gente especial. À semelhança,, entre outros, de Gente, de Fernando Sabino; de De corpo inteiro, de Clarice Lispector; de Literatura e vida, de Antônio Carlos Villaça; de Vida de artista, de Flávio Moreira da Costa; de República das letras, de Homero Silveira, e de Sobre pessoas, de Antônio Torres.
Josué Montello, no prefácio já referido, lança mão de uma ideia de Ortega Y Gasset, no sentido de que “a clareza é a cortesia da filosofia”. Tal pensamento se ajusta perfeitamente, na compreensão do escritor maranhense, à figura de Francisco de Assis Barbosa, uma vez que, “tudo quanto lhe sai da pena tem este propósito: comunicar-se diretamente com o leitor”.
De minha parte, assino embaixo, sem pestanejar, as palavras do mestre Josué. E deixo, aqui, minha sugestão de leitura, invocando o nome de Francisco de Assis Barbosa, que muito serviço intelectual prestou à literatura brasileira. Sobretudo em torno de pesos pesados, como Machado de Assis, Lima Barreto, Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira e Mário de Andrade.
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