Sérgio Botêlho – Carnaval, maior expressão da cultura brasileira, revela, de forma grandiloquente, a enorme força de resistência das religiões de matriz africana, no Brasil
De vez em quando a polícia do Distrito Federal se vê obrigada a agir contra vândalos intolerantes que depredam símbolos sagrados da umbanda e do candomblé que ficam em um ponto da parte norte da orla do Lago Paranoá, em Brasília.
Do alto do desprezo que nutrem pelo que se lhes apresentam como diferente, esses ignorantes parecem não se importar com a ferida que provocam nos crentes dessas religiões raízes da construção religiosa brasileira.
Nesses dias, o ato de violência e intolerância se repetiu no Rio de Janeiro, quando um indivíduo desses que vivem à sombra de sua loucura e de seus interesses mais mesquinhos e inconfessáveis depredou uma imagem de São Jorge em uma praça do Irajá.
Lá, na capital fluminense, a resposta direta à insanidade da violência veio em forma de uma solenidade conjunta sob a direção de católicos e adeptos do candomblé e da umbanda, que repuseram a imagem no local, e prometem repetir o ato tantas vezes quanto seja necessário.
Pelo Brasil inteiro, não são poucos os ataques vexatórios perpetrados pelos intolerantes, à unanimidade, contra as religiões de origem africana, no Brasil, majoritariamente seguidas pelos segmentos negros brasileiros. Mas, também, muitos e muitos brancos.
Se o objetivo é intimidar os crentes da umbanda e do candomblé, não parece que o objetivo dos agressores venha conseguindo alguma coisa. A cada 8 de dezembro e a cada 2 de fevereiro, dias em que se festeja a divindade Iemanjá, as manifestações são cada vez mais numerosas.
Contudo, o maior exemplo da resiliência dessas religiões aconteceu, agora, no Carnaval fora de época promovido no Rio de Janeiro e em São Paulo. A maioria esmagadora das escolas de samba de uma e de outra capital resolveu homenagear os orixás.
Foi emocionante perceber, então, que apesar dos atos agressivos de todos os dias – e que não se limitam apenas a quebrar monumentos e destruir símbolos diversos das religiões afro, mas também agredir fisicamente e até matar as pessoas – a umbanda e a candomblé emergiram grandiloquentes nos enredos cariocas e paulistanos.
A partir daí, ficou bem mais patente que não há coisa mais ridícula do que as tentativas dessa gente inculta e rude quando se dispõe a amedrontar os seguidores da umbanda e do candomblé. A fé nos orixás, assim como a fé nos santos e nos ícones da bíblia cristã, é enraizada há séculos entre os brasileiros.
Convém, portanto, para os que se dizem cristãos, estudar mais as raízes do cristianismo para se darem conta de que quanto mais os primeiros padres foram combatidos, inclusive martirizados e mortos pelo poder romano e sua intolerância, mais a religião cresceu.
O exemplo revelado pelos carnavais do Rio e de São Paulo, não por acaso as duas mais importantes metrópoles brasileiras, vai ficar para a história do Brasil e, certamente, se constituirá em um ponto de inflexão importante para a sobrevivência das religiões de matriz africana.
Para mais contrariedade de seus detratores e algozes, tanto em São Paulo quanto no Rio as vencedoras fizeram da glorificação aos orixás o centro de seus enredos. Em São Paulo, a Mancha Verde homenageando Oxossi, e no Rio, a Grande Rio exaltando Exu.
Das demais, praticamente à unanimidade, o tema foi o mesmo e as manifestações de fé e religiosidade na avenida bem dizem do quanto essas religiões representam a formação do povo brasileiro, que segue traçando o seu destino e consolidando a sua cultura, a despeito dos intolerantes.
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