Proclamação da República em 15 de novembro de 1889: e o povo?

Proclamação da República: onde estava o povo em 15 de novembro de 1889? O povo estava em casa, posto em sossego, nas cidades, ou nos sertões, pelo interior do país.

Sérgio Botêlho

Proclamação da República: onde estava o povo em 15 de novembro de 1889? O povo estava em casa, posto em sossego, nas cidades, ou nos sertões, pelo interior do país. Isso porque a proclamação da República, em 1889, foi apenas uma quartelada.

Mais, ainda, representou a reação da elite agrária contra a abolição da escravatura, assinada pela Monarquia. Ao chancelar a Lei Áurea, por pressão do capitalismo internacional nascente, então, a princesa Isabel assinou o fim do sistema monárquico brasileiro.

Olhando com rigor a história, portanto, a proclamação da República foi mesmo um movimento reacionário. Mesmo que se entenda ser a República, do ponto de vista democrático, um estágio superior de organização do Estado, com relação à monarquia.

Canudos

Poucos anos depois, Canudos, no interior da Bahia, viria demonstrar o grau de enraizamento da Monarquia no inconsciente do povo. Tanto assim que o movimento, de cunho absolutamente popular, foi acusado de querer restaurar o sistema monárquico.

Na verdade, tendo entre os ideários a figura do rei, Antônio Conselheiro e seus seguidores lutavam contra um sistema basicamente feudal de posse da terra. Ou seja: contra aquele mesmo sistema que derrubou a Monarquia brasileira.

Liberalismo

Importante anotar que o sistema imperial, sob o reinando de Pedro II, vinha adotando práticas liberais na organização econômica. Tudo muito a contragosto de uma elite agrária que se refastelava com a pura exportação de matéria prima, reforçada pela escravidão.

Nesse quesito, o da economia, com o passar do tempo se impôs, a bem da verdade, um novo tipo de desenvolvimento calcado na indústria. O que possibilitou, na República, a chegada ao Brasil de grande número de migrantes, consolidando o trabalho livre.

Mas, até nisso a motivação tinha a ver com sentimentos elitistas. Pois, na época, a chegada de italianos, japoneses, alemães e outros europeus era vista como necessária ao “embranquecimento” do país. Imagine!

Por outro lado, se a República, em tese, acabava com a existência de uma casta se revezando no Poder do Estado, na forma da família real, o novo modelo de governo estabeleceu no poder, em seus primórdios, outra casta, formada pela alta cúpula do oficialato do Exército.

O que comemorar?

Temos o que comemorar neste 15 de novembro, disto tudo isso? Para muitos historiadores, sim, ‘ma non troppo’. Para parcela considerável dos especialistas em história, o grande fato transformador do país aconteceu com a Revolução de 30.

Portanto, teria sido em 24 de outubro de 1930 quando ocorreu o mais significativo rompimento com a herança a nós afiançada pelo sistema de capitanias hereditárias. Havia povo nas ruas, então? Mais ou menos. Porém, mais do que em 15 de novembro de 1889.

Contudo, como alegria de brasileiro dura pouco, em 1937 a mesma turma que fez a revolução de 30 jogou o Brasil numa ditadura terrível, chamada Estado Novo. Foi durante esse período que o obscurantismo dominou o país, mais do que em outras épocas da nossa história.

Neste 15 de novembro é preciso, como sempre, nesta mesma data, reforçar que a República precisa avançar no que diz respeito ao fim das desigualdades, sejam elas quais forem, de gênero, de raça e de cunho social.

Dessa forma, ao lado de uma sonora “monarquia nunca mais”, convém juntar uma outra palavra de ordem a exemplo de “democracia sempre e cada vez mais”. Pois, não há qualquer outro regime de governo mais cidadão do que a República nem sistema político mais poderoso do que a democracia.

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