Ultramaratonista brasileira mobiliza o mundo em favor do planeta

Primeira mulher a escalar o Aconcágua, brasileira que mora na Europa instiga opinião pública em favor do planeta Terra

Ultramaratonista e advogada, Fernanda Maciel foi a primeira mulher a escalar o Aconcágua, a montanha mais alta das Américas. Agora, ela entra em ação para mobilizar opinião pública e incentivar países desenvolvidos ricos a desembolsar US$ 100 bilhões anuais para resolver necessidades de mitigação e adaptação do clima. Da França, ela conversou com Eleutério Guevane, da ONU News, sobre a necessidade de conscientização de todos para salvar o planeta. 

Fernanda Maciel (FM): Eu sou brasileira e moro na Europa já há 12 anos. Sou advogada e me enfoquei no ambiental. Trabalhei como advogada para o meu estado de Minas Gerais, no Brasil. É um grande estado. São 20 milhões de habitantes. Eu trabalhava para a Fundação Estadual do Meio Ambiente e era chefe do setor de Autos de Infração. Em tudo o que as indústrias ou as minerações no meu estado fizessem de irregular, em relação às leis ambientais, era o meu setor que autuava e colocava a infração. Eu controlava todos esses processos. Eu também sempre fui atleta, amante da montanha e da natureza. Por isso, como advogada, escolhi a área ambiental e trabalhar para o meu estado. Como esportista, como atleta, eu foquei minha carreira em correr nas montanhas. E eu me via com muito mais contato com a natureza sendo corredora, mais do que como advogada, no final. Eu fui escolhendo o meu caminho para estar mais ligada à natureza para inspirar as pessoas. Mais ainda com a minha figura de esportista, como amante das montanhas, do que como advogada ambiental. Hoje eu estou super feliz, super motivada por estar fazendo parte dessa campanha. Porque tem tudo a ver com a minha pessoa e com o meu sonho: poder mostrar que a corrida, e estar em movimento, é super especial para a gente estar de cara com esse grande problema mundial que é a crise climática. Há 20 anos, estudava sobre o El Niño, esse fenômeno climático. E continuo estudando e vendo isso. Eu tenho a oportunidade de, como atleta, estar correndo em todos os países e todos os continentes. Já competi na floresta amazônica: uma corrida de 50 km, no meio da floresta. Foi incrível. Mas eu consegui ver ali, com meus próprios olhos, parte da floresta ainda intocável, densa e super maravilhosa. Em parte dela passei por uma área que era seca, sem nenhuma árvore. Eu via essa mudança no meio da floresta, aquela coisa úmida, e de repente estava nesse lugar aberto e seco. Eu vejo com meus olhos essas diferenças. Hoje, eu moro em Chamonix, aqui na França, nos Alpes, em montanhas, por conta do meu esporte. É um lugar mais próximo às montanhas mais altas. Aqui, eu corro em glaciares. Na frente da minha casa tem dois glaciares, por exemplo, e é onde eu corro e treino diariamente. O Mar de Glace, por exemplo, é o glaciar mais largo da França. São 12 km de longitude. É um glaciar que está perdendo os metros. A cada ano se perdem 40 metros. Ou seja, a previsão daqui a 20 anos a gente vai perder um quilômetro e meio desse glaciar. Então, eu vejo isso. Comecei a correr aqui há 11 anos e, hoje em 2021, eu vejo o glaciar que se está perdendo e nesses lugares críticos o que está acontecendo. Então, essa campanha que as Nações Unidas estão realizando é incrível, porque nos toca no coração. Chega próximo ao indivíduo. Uma coisa é a gente estar vendo na televisão governantes lutando, passando a palavra e toda a população se manifestando. Mas quando chega uma campanha em que nós temos que correr 100 minutos, caminhar 100 minutos ou andar de bicicleta 100 minutos. Essa parte dessa campanha está requerendo ou insistindo que a gente se movimente sem estar com o carro e de uma forma limpa. Eu acho que começa pelo estilo de vida. Para mim é super fácil. é uma hora e meia correndo e acabou. Mas para as pessoas normais é difícil estar movimentando 100 minutos, ir até ao escritório e voltar ou ao supermercado a pé. Mas vai mudando esse estilo de vida: menos é mais. Às vezes, nessa campanha não só se estará abrindo nossos olhos, para ter esse alerta para os grandes políticos e países, mas também para gente individual, dentro de casa. Vamos nos movimentar um pouco. Deixar o carro. Vamos fazer a bicicleta. Vamos deixar de fazer alguma viagem de avião por conta dessa taxa de carbono porque são pequenos detalhes. Vamos reciclar ou ensinar o filho a reciclar. Que legal. Eu já participei de tantos projetos de reciclagem e era tão difícil tocar isso com as pessoas mais velhas. Porque é cultural. 

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ON: Algo muito importante é que, nesta campanha, o mundo vai estar mobilizando as lideranças para apoiar os menos favorecidos. Você que tem contato com eles, os menos favorecidos, sabe exatamente onde este conjunto de mudança do clima impacta esse grupo?

FM: Nos menos favorecidos tanto nas favelas na nossa Mata Atlântica, no Brasil, é que quando temos uma chuva ou tempestade ela destrói essas casas dos menos favorecidos. Destrói. São milhões de pessoas, não só no meu país. A gente tem visto agora, em vários lugares como na África do Sul, que são desarraigados. São deslocados por uma chuva dessas, uma tempestade ou uma seca. O norte do meu país é super seco e não tem água. As pessoas são deslocadas e não têm esse subsídio. A mesma coisa em Manaus, próximo da floresta. Os índios quando se vai desmatando a floresta e não têm mais casa. Eu acho que esses países todos que vão poder ser tocados a poder dar ajuda à minoria é essencial, porque a gente tem que pensar como um todo mesmo. Isso é o que a campanha está solicitando. 

ON: É um minuto de atividade para cada bilhão de dólares necessário (dos 100 bilhões por ano) até 2030. Acha isto possível? Como vai chegar esta mensagem a cada vez mais gente: aos jovens do Brasil, da Europa ou mundo onde você está e esteve vendo que há necessidade?

FM: Olha, eu não gosto de ser negativa. Uma grande mudança já está acontecendo. Essas campanhas são super necessárias para mobilizar mesmo. Porque fica uma coisa muito fria para os grandes e não nos toca. Eu acho possível que esse tipo de campanhas nos toca mais. Continuando a fazê-las para toda a população eu penso que sim. Mudando todo estilo de vida e pressionando às autoridades, sim, é possível. Claro que em 2030 não vai estar tudo solucionado. Mas uma grande parte já vai ser feita. Eu considero que esse caminho aí vai ser alinhado para a gente puder, se Deus quiser, continuar correndo em montanha, podendo respirar ar puro na floresta e também no meio da cidade grande.

ON: É mesmo essa sua inspiração e atividade todos os dias: correr respirando ar puro. Mas o que você quer dizer para as mulheres? Como uma que chegou a lugares onde muito poucas chegaram? Aconcágua, na Argentina, foi um exemplo disse. Lá no cume do monte onde você chegou. Elas terão algum lugar especial nessa iniciativa?

FM: As mulheres, acho que, muitas vezes, nós somos mais esquecidas, né? Infelizmente. Então, às vezes na hora de deslocar, no fato de ter um tsunami, ou uma atividade que seja mais precária, né, acaba que o homem por ser mais forte ou por ser homem mesmo acaba tendo mais possibilidade. Eu tento, eu faço… Eu tenho um projeto que é socioambiental e esportivo. Por exemplo no caso da Aconcágua, foi o início do … Eu corro as montanhas mais altas do mundo, então eu tenho o recorde mundial por conseguir ser a primeira mulher a correr as montanhas altas do mundo. Então, este projeto mesmo de subir e descer correndo a Aconcágua, que é a montanha mais alta das Américas, eu fiz esse projeto com este challenge (desafio) de corrida que era quase impossível pra mim, mas também um challenge socioambiental. Eu fui lá para ver com meus olhos que no campo base que está a 4.320 metros de altura, ali existem 22 mil quilos de lixo que são deixados ali. Então o que acontece? Os visitantes, os próprios escaladores, os trekkings, eles sobem com alimentos e com tudo, com mochila… só com resto de alimentos e de plástico que eles vão deixando ali, isso gera, 22 mil quilos, entendeu, em um ano. Então, esse meu projeto de subir e descer correndo ali é um simples exemplo, que eu fui para fazer isso: para ser a primeira mulher no mundo a conseguir a correr e também verificar que, poxa, se você traz à montanha o seu lixo, você tem que trazer ele de volta pra casa porque é muito difícil organizar vários helicópteros para subir a 4.300 metros e para retirar esse lixo dali. Poxa, se você gosta da montanha, não vai poluir. Isso é simples, entendeu? Então é consciência humana. Então, eu espero que essa campanha traga as pessoas mais próximas à natureza, mais próximas ao esporte, mais próximas ao movimento e veja também que as mulheres também estão super engajadas no movimento de corrida, as mulheres estão, é um sexo frágil, mas não, é igual, entendeu? Então, eu acho que esta parte da campanha que quer ajudar aos menos favorecidos e incluir a mulher nisso é super válido e um super importante ponto a ser também mencionado.

ON: E agora a terminar, vamos falar dos jovens na era das redes sociais, da tecnologia, da informação. Como acha que essa mensagem vai chegar aos jovens e pode ser multiplicada por esse grupo que também está cheio de adrenalina para correr como a Fernanda Maciel faz, e como talvez gostaria de inspirar a outros jovens, também?

FM: Isso. Eu acho que… como exemplo, né? Quando eu tentei colocar o projeto de reciclagem no meu estado, no Brasil, eu vi que tocar as pessoas mais velhas era mais difícil. Então tocar as pessoas mais jovens é mais fácil. E tendo campanhas como essa, é perfeito, é totalmente engajador, é totalmente conectado. E porque os jovens são quem vai fazer a diferença em 2030, em 2050, entendeu? Então, hoje o jovem é super energético. Eles querem estar movimentando mais. Então, vamos focá-los para movimentar mais e abrir os olhos agora para essa ação, né?, de crise climática. E ajudar as pessoas menos favorecidas. Eu acho que isso tudo tem a ver com essa campanha.E são os jovens mesmo que a gente tem que estar tocando.

Quando eu tentei colocar o projeto de reciclagem no meu estado, no Brasil, eu vi que tocar as pessoas mais velhas era mais difícil. Então tocar as pessoas mais jovens é mais fácil. E tendo campanhas como essa, é perfeito, é totalmente engajador, é totalmente conectado.

ON: Ultramaratonista brasileira, que conseguiu chegar ao ponto culminante do Aconcágua, na Argentina, que chega lá no topo. Alguma coisa a mais para concluir a nossa conversa. Especialmente falando de ação para proteger o clima?

FM: Eu acho que é compartilhar, entendeu? Começa desde casa. Talvez os nossos avós não tenham nos ensinado isso. Mas hoje, nós podemos ensinar os nossos filhos a exigir, entendeu? A ter uma consciência ambiental, a ser educado com o meio ambiente. A coisa é simples: a reciclar o lixo, a ir de bicicleta para a escola, são mínimos detalhes que você pode ensinar dentro de casa. Acho que essa é a mensagem. E sempre exigir seus direitos, entendeu? É nosso direito de exigir aos grandes a parar de destruir, a parar de ter essa ganância. Como eu disse, menos é mais. Então vamos tentar focar isso e exigir que isso seja mais para a nossa natureza.

ON: Vai participar da COP-26 e mostrar lá que tem também voz?

FM: Isso. Com certeza. Aqui, eu participo, aqui na França de uma ONG (Protect our Winter) que protege sempre os glaciares e estou em contato com todas as leis que podemos ter ação aqui em Paris. Então, de todas as formas, eu tento participar de projetos pequenos lincados ao meio ambiente e projetos maiores também lincados às leis, e essa participação mais profunda.

Edição: Sérgio Botêlho

Da redação do Para Onde Ir, com informações da ONU News 

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