Para Onde Ir (Sérgio Botelho) – Numa bela homenagem ao processo criativo da poesia, o acadêmico e poeta Hildeberto Barbosa Filho explica que, no poema, as palavras não apenas se aproximam, mas também se mesclam e entrelaçam em uma “coreografia” que é tanto erótica quanto expressiva, destacando a beleza e a complexidade do entrelaçamento das palavras e dos significados na poesia.
Pensamentos provisórios
Hildeberto Barbosa Filho
Fazer poemas é reunir palavras que estão separadas. Palavras que estão distantes umas das outras, quer na simétrica hierarquia dos dicionários, quer nas casuais situações e contextos linguísticos. Uni-las, com base num propósito estético, numa razão existencial, numa limpeza semântica. Fazer poemas pressupõe, portanto, o conhecimento de que as palavras, por mais diferentes que sejam, possuem alguma coisa em comum. E esta coisa em comum é exatamente aquilo que determina a possibilidade de sua união. Em si, as palavras ainda não pertencem ao reino mágico do poema. É preciso juntá-las, atritá-las, organizá-las, sob um dispositivo especial, para que o poema, ainda em potência, em ato se transforme. Há, como se sabe, um eixo de similitude, no qual todas as palavras se correspondem, e um eixo de contiguidade, aberto para arrumá-las numa disposição qualquer. O poema, enquanto ser de linguagem, consequentemente não pode fugir ao primado dessa concepção. Sobretudo porque, no poema, as palavras se aproximam umas das outras, se mesclam umas com as outras, se entrelaçam umas com as outras numa coreografia, ao mesmo tempo erótica e expressiva. Substantivos, verbos, adjetivos, advérbios, pronomes, conectivos, locuções, tudo se funde numa unidade significativa, porém, polissêmica, que demarca a geografia do poema.
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