Outsiders em conflito: o desgaste do diálogo democrático

Sérgio Botelho – Temos o primeiro grande ato falho da atual campanha política municipal. Ele vem de São Paulo. No debate desse domingo, 15, à noite, na TV Cultura, após ser provocado pelo candidato Paulo Marçal (com o tradicional, surrado, mas aqui e acolá rentável, “você não é homem para…”), que concorre pelo PRTB, o também candidato José Luiz Datena, do PSDB, simplesmente lhe desfechou uma cadeirada, ao vivo e a cores.

O ato foi o suficiente para o agressor ser expulso do restante do debate e o atingido com a cadeirada baixar no hospital. Marçal, que enfrenta a eleição paulistana com a fama de outsider, que na origem significa “aquele que está por fora”, já tinha anunciado que iria continuar provocando até haver reações mais agressivas, como foi o caso. Datena, que também é um “por fora”, já que não é político tradicional, e que parece incomodar a campanha de Marçal, engoliu a corda.

O episódio materializa a situação a que chegamos, onde a política é criminalizada — muito, por culpa de práticas comuns a alguns profissionais da área —, abrindo campo aos aventureiros, agravando ainda mais a situação. Nem Marçal pode ser considerado na medida exata como vítima, já que anunciou a provocação como método, nem Datena pode ser inocentado, porque terminou efetivamente agredindo. Quem sai perdendo, infelizmente, é a democracia.

Afinal, quando o espaço destinado ao confronto de ideias e propostas é contaminado por agressões verbais e físicas, há fortes consequências negativas sobre os valores fundamentais que sustentam a democracia, como o respeito mútuo e a tolerância. A dinâmica desvirtua inteiramente o propósito dos debates eleitorais, que é informar o eleitorado e promover a deliberação pública, permitindo que os eleitores façam escolhas informadas.

A entrada de outsiders ou “aventureiros” na política pode ser vista como uma resposta ao descontentamento popular com a classe política tradicional. O mal é que sem uma compreensão profunda das responsabilidades inerentes ao cargo público e sem respeito pelas normas democráticas, os tais atores “por fora” terminam recorrendo a estratégias populistas e confrontacionais visando a conquista, a qualquer preço, do eleitorado. Com efeito, episódios de violência política podem ter um efeito cascata na sociedade, normalizando comportamentos agressivos e minando a confiança nas normas democráticas. Por sinal, um dos objetivos dos inimigos da democracia.

Enfim, quando pretendentes a cargos eletivos exibem comportamentos violentos ou de desrespeito, eles enviam uma mensagem permissiva que pode legitimar a violência e o insulto como meio de resolução de conflitos na esfera pública e privada, levando ao aumento da polarização social, já em níveis insuportáveis. O que é lastimável!


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