Sérgio Botelho – Há uma missão da NASA em busca da Lua que nos deu mais um exemplo da importância da capacidade feminina em todos os campos da atividade humana.
Diante de um problema de consequência gravíssima para a expedição, a astronauta e engenheira eletricista Christina Koch precisou agir além da especialidade pela qual se notabilizou. Transformou-se, na prática, em encanadora e resolveu uma pane no banheiro da nave.
Sem banheiro, simplesmente não haveria missão possível. Foi preciso adaptar conhecimento técnico, serenidade e senso prático para enfrentar a falha. Entre os quatro astronautas a bordo, ela era a única mulher.
O episódio vale pelo simbolismo. Em situações extremas, não é o preconceito que salva, mas a competência. Não é a pose de mando, nem a fantasia do macho dominador. O que salva é a inteligência posta a serviço da vida, da técnica e da solução concreta dos problemas.
Se houvesse ali algum desses homens moldados pela presunção machista, talvez Christina nem tivesse a chance de tentar. Seria cortada pelo preconceito antes de ser avaliada pela capacidade. Felizmente, ciência séria não combina com esse tipo de cegueira.
Enquanto isso, aqui embaixo, no mundo real das relações humanas, o Brasil assistiu recentemente a mais um episódio cruel de feminicídio, no assassinato de uma policial militar pelo próprio marido, também policial militar.
Em mensagens dirigidas à mulher, ele desfiava frases brutais, entre elas a de que “rua é lugar de mulher solteira à procura de macho”. Entre as queixas da vítima, havia o relato de agressão com um tapa no rosto. Quem sabe quantas vezes isso se repetiu.
Bater em mulher é uma das formas mais antigas e covardes de apagamento feminino. É prática recorrente entre os que se apresentam como “machos alfa”, expressão tomada da vida animal e usada, entre humanos, como caricatura de força, mando e superioridade. No fundo, trata-se apenas de atraso moral.
O problema vai muito além, embora isso já bastasse, da imensa questão dos direitos humanos. Ele alcança o próprio destino da humanidade. Numa época em que conhecimento, ciência, criatividade e capacidade de cooperação são decisivos, é vital que o saber feminino seja plenamente aproveitado.
Houve um tempo em que a força física pesava mais na divisão do trabalho, na organização da vida social e no exercício do poder. Esse tempo foi sendo substituído, ainda que com resistências, pela era da inteligência, da técnica e da formação. Nesse mundo, excluir mulheres não é apenas injustiça. É estupidez histórica.
Quando Marie Curie recebeu o Prêmio Nobel, e depois o recebeu outra vez, entrou numa sala cercada quase inteiramente por homens. A imagem impressiona não apenas pela consagração de uma cientista extraordinária, mas pelo contraste entre sua grandeza e a barreira social que precisou vencer para chegar até ali.
E quantas outras mulheres, com igual capacidade, foram impedidas de estudar, de pesquisar, de escrever, de descobrir, apenas porque o machismo de seu tempo lhes fechou as portas. Quantas inteligências foram desperdiçadas. Quantas curas não vieram. Quantas invenções não nasceram. Quantos livros não foram escritos.
Aqui mesmo na Paraíba, há um episódio que sempre gosto de lembrar, por sua grandeza e pelo contraste com a mentalidade dominante de sua época.
Quando governou a Paraíba, entre 1857 e 1858, Beaurepaire Rohan criou o Colégio Nossa Senhora das Neves, voltado para a educação feminina. E justificou a iniciativa com uma frase luminosa, ao defender que as moças não fossem condenadas apenas ao oratório, à sala de jantar e à cozinha.
Num período em que o destino da mulher parecia previamente traçado por pais, mães, irmãos, governantes e pela pressão geral dos costumes, aquele gesto foi mais que administrativo. Foi um gesto de coragem, lucidez e visão de futuro. Pena que tenha durado pouco. Ao deixar o governo, o sucessor fechou o colégio.
O fato mostra como o avanço feminino quase nunca foi concedido espontaneamente. Ele precisou ser aberto à força da razão, da persistência e da coragem. E, mesmo quando conquistado, quase sempre teve de enfrentar reações, recuos e tentativas de restauração do velho mando masculino.
Para construir um futuro melhor, a humanidade precisa de todos os seus contemporâneos. E precisa deles em sua plena capacidade. Nâo há espaço possível para o preconceito. Já não estamos na era em que a força bruta e o gênero definiam o poder, o prestígio ou a sobrevivência. O mundo contemporâneo depende muito mais de conhecimento, formação, equilíbrio e invenção.
Entre o feito de Marie Curie e os dias de hoje, milhões de mulheres ocuparam universidades, laboratórios, redações, tribunais, escolas, parlamentos, hospitais, empresas e centros de pesquisa. Inventaram tecnologias, formularam teorias, lideraram instituições, ganharam prêmios e ampliaram os horizontes da vida humana.
Ainda assim, sobrevivem no coração da sociedade indivíduos que pensam como o agressor que mata a esposa por não suportar a existência autônoma de uma mulher. As contínuas notícias de feminicídio mostram que não se trata de resíduo isolado, mas de uma doença social persistente.
Há, porém, sinais de esperança. Em muitos países, as mulheres já são maioria no ensino superior. Isso não resolve tudo, mas aponta uma direção. Onde há acesso ao estudo, cresce a independência. Onde cresce a independência, diminui o espaço do mando bruto. Onde diminui o mando bruto, a sociedade inteira respira melhor.
O que se espera para o futuro é que homens incapazes de conviver com a liberdade feminina mudem de comportamento ou sejam contidos pela lei. Já a humanidade, se souber aprender a lição, poderá sonhar com um tempo menos violento, mais inteligente e mais justo.
Porque, no fim das contas, o futuro não pertence à brutalidade. Pertence à inteligência. E a inteligência humana, felizmente, nunca foi privilégio dos homens.
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