PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. João Melchíades Ferreira da Silva, o Cantor da Borborema

Sérgio Botelho – Neste domingo, 7 de setembro, minha homenagem vai a um dos expoentes paraibanos da poesia popular, que, por sinal, são muitos e todos muitos bons, a começar pelo pombalense Leandro Gomes de Barros.

De matriz ibérica, como o romanceiro e os folhetos de corda, o estilo criou, no Nordeste, linguagem própria, passando da oralidade às tipografias regionais a partir da segunda metade do Século XIX.

Entre os bons da poesia popular se inscreve João Melchíades Ferreira da Silva, o Cantor da Borborema, nascido em Bananeiras, em 7 de setembro de 1869, mais achegado, em sua arte, aos poetas de bancada (cordelista que vende e declama seus folhetos).

Muito jovem entrou no Exército, tendo lutado em Canudos, em 1897, e no Acre, em 1903. Adoeceu de beribéri, reformou-se como sargento e fixou moradia na antiga cidade da Parahyba, hoje João Pessoa, onde viveu de folhetos e cantorias.

Publicou a maior parte dos folhetos na Popular Editora, na capital paraibana, de Francisco das Chagas Batista (uma história à parte desse cidadão de Teixeira, casado com a prima Hugolina Nunes da Costa, irmã de Ugulino do Sabugi, também chamado de Ugulino de Teixeira, no que dá no mesmo).

A partir de 1914, João Melchiades manteve edição regular e viajou pelos sertões para vender seus livrinhos, muitas vezes levando também terços e romances de prateleira (edições populares de romances e novelas em prosa, baratas e de grande circulação).

Entre os livros mais famosos dele estão As Quatro Órfãs de Portugal ou O Valor da Honestidade, Combate de José Colatino com o Carranca do Piauí, História do Valente Sertanejo Zé Garcia e Peleja de Joaquim Jaqueira com João Melquíades.

No entanto, o mais notável de todos, o Romance do Pavão Misterioso, guarda uma celeuma grande em torno da autoria, entre ele e outro paraibano, este de Pilõezinhos, dos tempos de distrito de Guarabira, José Camelo de Melo Rezende, que tem a preferência dos pesquisadores.

Clássico do cordel, publicado em 1923, o Pavão Misterioso narra o amor do personagem Evangelista pela condessa Creusa e a ousadia do herói que sobrevoa a torre onde ela está presa, numa máquina em forma de pavão. A trama combina motivos de contos maravilhosos e de tradição antiga.

O texto virou referência cultural. Inspirou quadrinhos, montagens teatrais e a canção “Pavão Misterioso”, de Ednardo, lançada em 1974 e lembrada por novelas de TV. O cordel segue lido em escolas, feiras e projetos de leitura. É presença constante em acervos digitais.

Melchíades dá nome à cadeira 40 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Parte de seus folhetos está digitalizada pela Fundação Casa de Rui Barbosa. Sua figura aparece como personagem em “A Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna, prova do peso que ganhou no imaginário nordestino.


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