PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. A mulher no plano espiritual pessoense

Catedral basílica de Nossa Senhora das Neves
Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves. Crédito da foto: DE.UFPB

Sérgio Botelho – Se nos dispusermos a buscar um plano espiritual que se sobreponha na história de João Pessoa, o que vamos encontrar é eminentemente feminino. Entre suas primeiras igrejas, a ampla maioria foi dedicada a Maria, uma inclinação que persiste até hoje. A começar pela padroeira da cidade, que também é do estado, Nossa Senhora das Neves, patrona da mais icônica festa profano-religiosa da história da cidade, que ocorria junto ao sem templo. Ali perto, no conjunto beneditino, a igreja de Nossa Senhora de Montserrat; do outro lado, em linha reta, a de Nossa Senhora do Carmo; mais à frente, ao Sul, a de Nossa Senhora da Misericórdia.

Até o século XVIII, outras importantes igrejas dedicadas a Maria foram construídas na então Parahyba. No Litoral Norte, a de Nossa Senhora da Conceição, no Conde, a Capela de Nossa Senhora da Anunciação, em Alhandra, e as de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e Nossa Senhora da Penha de França, em Pitimbu. Já na Várzea do Rio Paraíba, a de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Santa Rita, a de Nossa Senhora da Batalha, em Cruz do Espírito Santo, e a de Nossa Senhora do Pilar, em Pilar.

Nas proximidades da foz do Rio Paraíba, a Igreja de Nossa Senhora da Guia e a de Nossa Senhora do Bonsucesso (em ruínas), em Lucena, e a de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre, no Poço (expostas suas ruínas, até hoje). Na então Praia de Aratu (atual Penha), a de Nossa Senhora da Penha. Na atual Praça Antônio Pessoa, em Tambiá, a de Nossa Senhora Mãe dos Homens (extinta e reerguida bem perto, na Avenida Monsenhor Walfredo); no hoje Ponto de Cem Reis, a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (derrubada, mas reconstruída em Jaguaribe, apenas como do Rosário); e na atual Praça 1817, a de Nossa Senhora das Mercês (depois de arruinada, reconstruída na rua Padre Meira).

Nave da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Praça Dom Adauto

Nesse mesmo período, a Igreja de São Gonçalo (que terminou na Torre), mas que existia na Praça João Pessoa, passou a ser dedicada a Nossa Senhora da Conceição dos Militares (derrubada e reconstruída na rua São Miguel, no Varadouro, apenas como de Nossa Senhora da Conceição). Já no início dos anos 1900, foi erguida a Capela de Nossa Senhora de Nazaré, no Poço, em substituição à antiga, embora em outro espaço, enquanto a Igreja de Bom Jesus, na atual Trincheiras, acabou consagrada a Nossa Senhora de Lourdes.

E tem mais: João Pessoa abriga desde as primeiras décadas do Século XX uma das raras homenagens femininas no campo da Maçonaria (que exige de seus membros a crença numa divindade suprema), no caso à mártir Branca Dias, na mais destacada Loja da internacional organização na capital paraibana, localizada na rua General Osório. Além disso, a maior festa da Umbanda e do Candomblé, dedicada a Iemanjá — orixá maior dessas religiões afro-brasileiras — também ocorre em João Pessoa, no dia 8 de dezembro, mesma data consagrada a Nossa Senhora da Conceição. A coincidência faz do dia um dos feriados religiosos mais celebrados no calendário da cidade.

É preciso acrescentar, ainda, as igrejas de Santa Júlia, na Torre, a de Santa Terezinha, no Roger, e a de Santa Tereza, junto à do Carmo, no Centro.

Esse prestígio simbólico e espiritual da figura feminina, contudo, não tem impedido que o patriarcalismo, ainda fortemente enraizado, continue a ditar normas sociais e culturais que silenciam, subordinam e, muitas vezes, violentam as mulheres, no Brasil inteiro. Em pleno século XXI, João Pessoa, como tantas outras cidades brasileiras, ainda enfrenta números preocupantes de agressões e feminicídios. A reverência pública a Maria, Iemanjá e Branca Dias contrasta dolorosamente com a persistência de um sistema que nega, a tantas mulheres reais, a igualdade no dia a dia.

É como se a mulher, no imaginário coletivo, só pudesse ser elevada quando idealizada — como santa, orixá ou mártir — mas não plenamente acolhida em sua condição humana, complexa, livre e presente na sociedade. Talvez esteja na hora de a cidade aprender com as devoções que cultiva, reconhecendo nelas não apenas o valor simbólico da mulher, mas a urgência de sua dignidade plena como cidadã.


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