Sérgio Botelho – Nem sequer é centenária, ainda, e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Varadouro, é cercada de muita história. Ela foi inaugurada na década de 1930, depois que o governo João Pessoa derrubou a antiga capela dedicada à santa, na Praça João Pessoa, entre os prédios da atual Faculdade de Direito e o antigo Palácio da Redenção, futuro Museu.
Para os que não sabem, a velha capela da Conceição, remanescente da época das atividades construtores dos jesuítas, originalmente dedicada a São Gonçalo (dedicação transferida para a Torre, até hoje), foi onde o Imperador Dom Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina assistiram à Missa do Galo no Natal de 1859, em meio à histórica visita real à então cidade da Parahyba.
Com endereço na movimentada Rua São Miguel, a área escolhida para a construção da nova igreja era uma das mais dinâmicas da cidade, o que incluía um interessante setor industrial, no extremo da Rua da República, com três fábricas bastante ativas e empregadoras de mão de obra: a do Guaraná Sanhauá, a Prensa de Algodão Abílio Dantas e as Indústrias Matarazzo.
Nas áreas próximas à igreja, havia a Praça da Pedra, com seus eventos cívicos, além dos cinemas São Pedro, na própria São Miguel, e mais o Astoria, o Popular e o Filipéia, na Rua da República. Na São Miguel existia, ainda, o dinâmico clube Esquadrilha V, com seus salões e suas quadras esportivas sempre agitadas. Sem falar nas concorridas festas de rua na São Miguel e na Visconde de Itaparica.
O Cordão Encarnado, cujo traçado esbarrava na igreja, era outro espaço de muita movimentação, não somente pelo apelo como opção de moradia, nas proximidades do Centro, mas também por suas festas, a exemplo das tradicionais lapinhas. O Cemitério Senhor da Boa Sentença, ali pertinho, dava o toque fúnebre ao local, mas sem deixar de ser mais um fator de forte referência para a vida pessoense.
Logo a partir dos primeiros anos da década de 1930, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, amparada pelas ruas São Miguel e Índio Piragibe, que trazia pessoas a pé, diretamente do Centro, se tornou sede litúrgica da uma das mais tradicionais festas profano-religiosas da cidade, de grandes recordações, justamente a Festa da Conceição, com suas novenas, seus pavilhões, folguedos, barracas e parque de diversões.
Assim, entre ecos de risos, preces e vozes que o tempo levou, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição permanece como testemunha da Parahyba de outros tempos. Dos bailes do Esquadrilha V às lapinhas do Cordão Encarnado, das filas nos cinemas de outrora ao barulho das fábricas, guardando histórias de um cotidiano que já foi cor, movimento e muita vida.
Hoje, mesmo com o silêncio onde antes havia fábricas e o vazio nos lugares dos antigos cinemas, a igreja segue de pé — não apenas como símbolo de fé, mas como farol de saudade. Nem mesmo o Cemitério Senhor da Boa Sentença, que já foi praticamente o único da cidade, já não é mais e, portanto, já não possui o poder que tinha de concentrar as atenções saudosas daqueles que já se foram.
Que a memória da festa da Conceição, com suas barracas e brinquedos e novenas, continue a nos fazer lembrar que, embora as décadas passem, há saudades que resistem, num espaço urbano que foi vivido tão intensamente. E enquanto houver que siga contando essas histórias, a Parahyba de outros tempos jamais virará esquecimento.
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