📜 CRÔNICAS ALEATÓRIAS. Fumaças assassinas

Sérgio Botelho – Nas pesquisas sobre a vida do padre Mathias Freire, encontrei, em determinada fonte, uma informação curiosa: o referido clérigo fumava com naturalidade em público, apesar da severidade de suas funções. A partir da  narrativa, o vício do cônego permite ser interpretado como expressão de alguém que ostentava um comportamento leve, livre, despojado, rebelde, simpático, pouco ortodoxo. E, em certa medida, era mesmo, pelo que li a respeito dele.

Assim como o padre era visto como alguém que deveria seguir padrões mais rígidos de comportamento, também as mulheres viviam sob trâmites morais limitadores. E bote limite nisso! Nesse contexto, as fumantes também eram percebidas como corajosas transgressoras de normas. O ato de fumar, entre elas, era visto como símbolo de liberdade, ruptura e afirmação individual. O cinema e a televisão ajudaram muito a consolidar essa visão, com atrizes famosas sendo associadas ao cigarro, nesse contexto, símbolo de autoafirmação. Afinal, se os homens podiam fumar em público, por que as mulheres não poderiam fazer o mesmo?

Milhões de mortes depois, e após décadas de alertas emitidos pela ciência de que a aspiração da fumaça do tabaco e doenças altamente fatais, como o câncer, mantinham um pacto diabólico entre si, a humanidade começou, ainda que de forma paulatina, mas crescente, a abandonar o cigarro. Foi tão forte e eficiente a campanha antitabagista no Brasil, por exemplo, que o ato de fumar deixou o campo do belo e do chique para tornar-se algo desagradável e cafona. Com uma série de proibições, o efeito foi devastador para o fumo.

No entanto, agora surge uma novidade tão ou mais nociva que o tabaco para os seres humanos, na forma do tal cigarro eletrônico (e ainda tem o narguilé.) Segundo as advertências científicas, da mesma forma que o cigarro à base de tabaco, o eletrônico também contém nicotina. E, de forma complementar, os vapes, como também são chamados, concentram mais de 80 substâncias cancerígenas. O pior é que o consumo de cigarros eletrônicos só cresce. E pasmem: apesar de ser proibida a sua comercialização.

Acho que está na hora de uma intensa campanha publicitária, como a que foi feita contra o cigarro tradicional, no sentido de desestimular seu uso. Necessário se faz torná-lo algo ridículo e grosseiro, sem qualquer apelo de rebeldia, como um dia essa imagem foi associada ao cigarro tradicional e, ao mesmo tempo, promover a inserção do tema nas escolas.

A campanha é efetivamente necessária porque os vapes continuam sendo livremente vendidos nas ruas e pelas plataformas sociais, a despeito de decisão contrária da Anvisa. Há poucos dias, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, ordenou que as plataformas retirem as ofertas das redes, inclusive Carrefour e Enjoei. Mas, ao que parece, não tem adiantado, o que, além da atuação punitiva, exige também muita propaganda contrária.

De forma significativa, volto a lembrar, essas atitudes deram certo com o cigarro tradicional. Vale repetir com os eletrônicos.

Mais informações:
https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/07/24/senacon-determina-que-plataformas-suspendam-venda-e-anuncios-de-cigarros-eletronicos.ghtml

https://amb.org.br/cigarro-eletronico-e-cigarro/


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